O Diário de Bordo do Coronel Hiram Reis e Silva, construído em parceria com o Clube de História do Colégio Militar de Porto Alegre, relata projetos de navegação a caiaque realizados pela região amazônica.
Fase 1: Tabatinga-Manaus (concluída em fevereiro de 2009). Fase 2: Rio Negro (concluída em 20 de janeiro de 2010).

Percursos percorridos na Fase 1 e Fase 2

Percursos percorridos na Fase 1 e Fase 2
Mapa produzido pelo Globo Amazônia

A chegada em Manaus (26 de janeiro de 2009)

“Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

Por Hiram Reis e Silva (Manaus, AM, 26 de janeiro de 2009)
- Véspera
A noite de domingo foi longa e insone. A um passo da conquista de um objetivo planejado e perseguido incansavelmente por dois anos, minha mente repassava, inconscientemente, como num filme, todas as alegrias e todos os obstáculos que tivemos que ultrapassar para chegar até aqui. A alegria de sentir o apoio e o envolvimento irrestrito de amigos e familiares, o incentivo por parte de cada um que tomando conhecimento de nosso desafio se tornou um aliado, um combatente de primeira linha. Foi uma verdadeira expedição que desceu o Solimões de carona nos nossos sonhos. Amigos de todos os rincões, amigos virtuais, amigos que comungam por uma causa maior: a da brasilidade e da soberania Amazônica. A cada um de vocês que de alguma maneira tornou possível a concretização de ‘nosso mais belo e arrojado ideal’, o nosso profundo agradecimento. Certamente vosso apoio encontrará eco nos labirintos das eras passadas, de ilustres heróis como Pedro Teixeira, Plácido de Castro, Cabralzinho, Euclides da Cunha e tantos outros que lutaram para ampliar nossas fronteiras tão comprometidas, nos dias de hoje, por ações de mal-informados dirigentes que tomam decisões que afetam todos cidadãos brasileiros.
- Largada para Manaus
Partimos por volta das 07:00 horas, pois não havia necessidade de sair mais cedo; a hora prevista para chegada no 2º Grupamento de Engenharia de Construção (2º Gpt E), em Manaus, era por volta das 14:00 horas. Remei lentamente, procurando curtir cada segundo, gravando cada imagem captada pela minha retina, cada som que percutia nos meus tímpanos. As palafitas, as pequenas ‘montarias’ manobradas com invulgar destreza pelos ribeirinhos, as terras caídas, as ilhas que andam, os pássaros... tudo tinha um nostálgico sabor de despedida.
- Furo Paracaúba
O ‘furo’ ou ‘paraná Paracaúba’ que liga o Solimões ao Rio Negro permite que se acesse o rio mais à montante de sua foz, economizando tempo e energia. O ‘Paracaúba’ não é nem sombra do que era nos idos de 1940 a 1950, período em que os navegantes, cautelosamente, escolhiam o melhor momento para abordá-lo contornando seus perigosos rebojos. Fizemos uma longa parada na margem do Rio Negro, aguardando o tempo melhorar. O conserto do caiaque pilotado pelo Romeu, em Manacapuru, foi muito mal feito e eu temia que algum esforço maior pudesse comprometer sua estrutura. A tempestade sobre a cidade de Manaus gerava fortes ondas e o horizonte, à leste, prenunciava tempo bom; resolvi aguardar até que o rio ficasse mais calmo.
- Último lance
O rio se transformou em um lago. Fizemos mais uma parada, pois eu procurava ajustar a chegada para a hora marcada, 14:00 horas. Iniciando a travessia do rio, busquei me aproximar da margem esquerda para me afastar do canal; a correnteza do Negro era fraca, tendo em vista a cheia do Solimões, mas existia. Diminuí o ritmo, tendo consciência de que chegaríamos, com isso, depois da hora marcada.
Parei numa rampa próxima à Ponte do Rio Negro aguardando o Romeu, que apresentava visíveis sinais de cansaço. Passamos a ponte e, mais uma vez, o GPS apontava para um ponto bastante distante do nosso destino. Passamos por diversos estaleiros e balsas que transportavam veículos de Iranduba para Manaus e vice-versa, quando, no meio daquele caos, avistei alguns soldados trabalhando na contenção de talude e, logo depois, um toldo com outros militares e repórteres que nos aguardavam.
- Missão cumprida
O Major Maier, Oficial de Relações Públicas do 2º GECnst, havia preparado um aparato formidável para nos receber. Ainda na praia, agradecemos a gentileza da recepção e concedemos algumas entrevistas aos diversos jornalistas que nos aguardavam.
Missão cumprida!

Manacapuru/Iranduba

Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

Por Hiram Reis e Silva (Iranduba, AM, 25 de janeiro de 2009)

- ‘Inconstância Tumultuária’
Gostaríamos de voltar a tratar da dinâmica do Rio-Mar, fazendo menção a alguns tópicos do livro ‘Manacapuru e sua História’, do senhor ‘Josué Ferreira Ruis’ dono do Hotel ‘Boa Vida’ onde ficamos hospedados em Manacapuru e tivemos o privilégio de conhecer.
Ilha de Manacapuru: ficava em frente à cidade e desapareceu, totalmente, na década de 60. Vinte anos depois o rio iniciou sua reconstrução com uma grande praia e hoje é conhecida pelo nome de Ilha de Santo Antônio.
Ilha de Pirapitinga: situava-se na foz do rio do mesmo nome e com o tempo foi levada pela força das águas.
Ilha da Conceição: localizava-se próxima à Colônia Bela Vista e em dois anos foi removida pelo rio-mar.
Ilha do Barroso: era uma grande ilha de mais ou menos 5 por 6 quilômetros e, na década de 50, por ocasião das vazantes, a distância entre a ilha e a costa de Bela Vista era tal que permitia que as lavadeiras de ambas as margens conversassem entre si enquanto lavavam as roupas.

- Ciclo da Juta e Malva
Na nossa estada em Manacapuru, tivemos a oportunidade de visitar as instalações da ‘Companhia Têxtil Castanhal’ que classifica e enfarda a juta recebida dos produtores para encaminhar, posteriormente, para industrialização. A gerente, senhora Patrícia, nos relatou alguns fatos interessantes que vamos procurar reproduzir. A Juta e a Malva são plantadas nas várzeas na época das vazantes e colhidas na época das cheias. A juta pode ser colhida após 3 meses de plantio e a malva depois de 4 meses o que permite duas safras ao ano. Embora durante aproximadamente dez anos o ciclo da Juta e da Malva tenha coexistido com o da Borracha, foi com a queda do comércio da borracha, em 1957, que este ciclo ganhou força se tornando a principal economia da região de Manacapuru. Desde 1988, porém, que, sem políticas governamentais em nível federal e estadual adequadas, sua comercialização entrou em franco declínio. A semente, antes entregue pela Companhia aos produtores cadastrados e que era paga pelo produtor com parte de sua produção, passou a ser feita pelo governo. A ‘bolsa semente’, como as demais bolsas governamentais, se presta à corrupção graças à falta de controle, permitindo que as sementes sejam vendidas por funcionários corruptos a atravessadores que repassam o produto aos ribeirinhos por preços aviltantes. Achamos que a criação de cooperativas com maquinário adequado para a retirada da fibra seria uma medida mais adequada que a ‘bolsa esmola semente’, permitindo não só um aumento significativo na produção, mas também na qualidade do produto. Em nível federal deveria ser sancionada uma lei que determinasse o emprego obrigatório de sacos de fibra vegetal na embalagem de determinadas sementes, assim como existe para o café exportado, que estaria muito mais de acordo com o desenvolvimento sustentável, diferentemente dos produtos que se encontra no mercado atual.

- Largada para Iranduba
Ligamos para o 190 e nossos amigos policiais prontamente nos atenderam e nos levaram até o ‘Paraíso D’Angelo’ onde estava o caiaque. Passamos bom tempo conversando com o mestre D’Angelo e retardamos a saída para não perder a oportunidade de ouvir nosso dileto e sábio amigo. Vamos sentir saudade do ‘homem de branco’ de Manacapuru que passeia pela sua propriedade com a serenidade de um ‘Anjo no Paraíso’. Partimos bem depois das 8 horas, sem pressa, já que o deslocamento era bastante curto. O Lago Miriti com suas águas tranqüilas e limpas nos encantou e dele partimos rumo a Iranduba. Depois de menos de 4 horas de navegação, sem paradas, enfrentando mau tempo durante boa parte do percurso chegamos ao flutuante do senhor Zé Cipó onde se encontrava o caiaque do Romeu. O Romeu estava me aguardando já há algum tempo, porque normalmente saio muito cedo, mas a companhia do mestre D’angelo me fez alterar a rotina.

- Iranduba
Os policiais já estavam alertados sobre todo o apoio a ser prestado e nos levaram à ‘Pousada Santa Rita’ administrado pela senhora Terezinha da Silva Cunha Crisóstomo. A limpeza das instalações e a cortesia de seus proprietários nos impressionaram muito favoravelmente e o fato de encontrarmos outra grande ‘coincidência’ na nossa viajem nos convenceu que o Grande Arquiteto vem trabalhando do nosso lado nos apontando o rumo a ser seguido. Mais uma coincidência Amazônica: a dona Terezinha é viúva do senhor José Silvestre do Nascimento e Souza, um dos maiores nomes da ‘Ciranda’ do estado do Amazonas, cujo nome já tinha sido mencionado em Manacapuru onde organizou a primeira Ciranda no Colégio Nossa Senhora de Nazaré. Fizemos contato com o Secretário do Turismo e Meio Ambiente para contatarmos elementos da prefeitura para nos mostrar a cidade e principalmente o sítio das ‘Terras Pretas Indígenas’. A Polícia Militar nos levou, depois do banho, até o ‘Restaurante Sertanejo do Paraíba’ onde já nos esperava o pessoal de Comunicação do município. O senhor José Raimundo, conhecido como ‘J. Rai’, nos fez um interessante relato sobre a história da cidade e, depois do almoço, acompanhados do senhor Levenilson Mendonça da Silva, o ‘lei’, fomos até o sítio onde estão fazendo as escavações arqueológicas.
O ‘Restaurante Sertanejo do Paraíba’ foi colocado, pela prefeitura, à nossa disposição e como fica afastado da cidade pedimos apoio da PM local para chegar até ele. Infelizmente, mais uma vez, a velocidade da internet local não permitiu que fizéssemos o upload das imagens que fizemos desde Anori. Entrevistamos o senhor José Raimundo, o ‘J. Rai’, que gravou um relato sobre a cidade e o senhor Levenilson sobre as ‘terras pretas indígenas’ de Iranduba.

23-25 Janeiro: Manacapuru/Iranduba

Anamã/Manacapuru

Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

Por Hiram Reis e Silva (Iranduba, AM, 24 de janeiro de 2009)

- Anamã
Conseguimos contato com os familiares e a equipe de apoio apenas pela internet. Infelizmente, a forte chuva que se abateu sobre Anamã impediu que tirássemos mais fotos das belas casas de madeira e dos quiosques do braço do Anamã. Fui dormir cedo, pois a jornada de 108 quilômetros do dia seguinte, ia exigir muito esforço. No lago Guaíba e Lagoa dos Patos, já havíamos enfrentado um desafio, o desafio ‘Rosa Mística’, de 90 quilômetros que exigira 13 horas e meia de pura navegação com algumas paradas de descanso, numa jornada que iniciou à 03h15min da madrugada e se prolongou até às 21h45min. Diferente do Lago e da Lagoa aqui contávamos com uma valiosa aliada que era a correnteza do Rio Solimões, mas, mesmo assim, era uma longa e demorada travessia.

- Largada para Manacapuru
Acordei às 04h30min e me preparei para o maior desafio físico do Projeto Rio-Mar. O silêncio das ruas só era quebrado pelo som das vassouras empunhadas pelos garis na sua labuta diária para manter a cidade limpa. Com a colaboração da nossa valorosa Polícia Militar, mais uma vez, preparamos o caiaque à desafiadora jornada. Partimos às 05h15min, enfrentando uma pequena correnteza contra nosso deslocamento, mantendo uma média de 6 km/h durante os 30 minutos que levamos para atingir a foz do Anamã. Nesta época do ano, as águas barrentas do Solimões invadem o braço do Amanã represando suas águas pretas.

- Solimões sem paradas
Logo que iniciei meu deslocamento no Solimões, um forte vento de proa prenunciou as dificuldades que eu iria enfrentar. O vento forte durou aproximadamente 2 horas, diminuindo a velocidade e, como o tempo estivesse muito carregado, decidi, por segurança, não aportar nas margens para me alimentar ou hidratar. Sempre que sentia necessidade de hidratação fazia-o no meio do rio, sem perder tempo e energia tendo de remar até a margem. A tática deu certo e, apesar de enfrentar ainda por duas vezes ventos adversos, cheguei à Manacapuru às 14h15min com exatas 9 horas, praticamente ininterruptas, de remo. Embora tivesse passado todo este tempo sentado na mesma posição, não tive dificuldade em me locomover, quando pus os pés na ‘Terra Preta’ do porto de Manacapuru.

- Manacapuru
Manacapuru é uma palavra de origem indígena derivada das expressões Manacá e Puru. Manacá (Brunfelsia hospeana) é uma planta que significa, em tupi, Flor. Puru, da mesma origem, quer dizer enfeitado, matizado. Logo, Manacapuru quer dizer ‘Flor Matizada’. A história da Cidade está vinculada à aldeia dos Índios Mura. A cidade está assentada na margem esquerda do Rio Solimões. A sede municipal está localizada na margem esquerda do Rio Solimões, na confluência com o Rio Manacapuru. A população de 73.304 habitantes, segundo o Censo de 2000, traz consigo a beleza, a determinação e a bravura dos índios Muras, descendentes das tribos Tupi. Fundadores, juntamente com os portugueses, do povoado de Manacapuru, lutaram com os cabanos em meados do século 19. Manacapuru se destaca como o primeiro município, no Amazonas, a ter um Sistema Municipal de Unidade de Conservação - a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Piranha, além da Área de Proteção Ambiental do Miriti e os Lagos de Manutenção do Paru e Calado.

- Polícia Militar (PM) e Prefeitura Solidárias
Pedi a um cidadão que acionasse o 190 de seu celular, chamando novamente os amigos da PM. O caiaque e o material foram transportados para o Batalhão da PM, onde tomei um banho e nos deslocamos até a Prefeitura Municipal para conseguirmos um alojamento onde foi providenciado o Hotel Boa Vida. Em seguida, fomos levados à presença do Secretário de Turismo e Meio ambiente que fez uma preleção sobre a cidade e nos colocou à disposição sua secretária Zilmara Moreira de Holanda e a diretora de eventos senhora Mara Regina Marques de Oliveira. Mais tarde, por uma dessas amazônicas coincidências, descobrimos que a Zilmara era cunhada do prefeito de Anamã, cuja residência e filhos tínhamos fotografado, quando lá estivéramos, e que a Mara era aparentada do escritor Jones Cunha que nos presenteara com seu livro em Jutica. Fiquei sabendo que o Romeu e a Maria Helena já haviam consertado o caiaque, avariado no rio Purus, e estavam em Iranduba me aguardando. Informei-lhes que seguiria o cronograma planejado tendo em vista o muito a ser visto em Manacapuru. A data prevista para chegar a Manaus era segunda-feira às 14h00min e não antes.

- Amigas Maras
Acordei cedo, comprei uns salgados na panificadora Esmeralda para o desjejum, dei um pulo até a lan house onde verifiquei que a velocidade era lenta demais para o upload das fotos. Fui até a igreja Matriz Nossa Senhora de Nazaré para umas fotos e, em seguida, pedi apoio da PM para um giro pela cidade com apoio das minhas amigas ‘Maras-Vilhas’. A Zilmara me encaminhou até o gabinete da diretora de eventos, Mara, que conseguiu amavelmente material sobre a cidade e seu principal evento cultural, as cirandas. Nos três dias que passeamos pela cidade e seus principais pontos turísticos, tive a atenção despertada pelo seu principal evento cultural que é o ‘Festival das Cirandas’, pela ‘Casa da Restauração’ e do Complexo Turístico ‘Paraíso D’Angelo’.

- Festival das Cirandas
A Ciranda é uma dança em que os participantes, de mãos dadas, imitam o ondulado suave das ondas do mar. ‘A ciranda de origem portuguesa, é dançada em rodas, (...) música e letra são originalmente portuguesas, embora já totalmente abrasileiradas. Existe uma versão infantil, que lhe é anterior, a cirandinha (...) que atravessou séculos sem alterações, como costuma acontecer com as brincadeiras infantis. ’ A ciranda chegou no Brasil Colônia pelas praias pernambucanas. A Ciranda nordestina foi incorporada às manifestações culturais do Amazonas, no final do século XIX, pelo pernambucano, chamado Antônio Felício, inicialmente na cidade de Tefé. No início da década de 80, o senhor José Silvestre do Nascimento e Souza e a professora Perpétuo Socorro, organizaram a primeira Ciranda no Colégio Nossa Senhora de Nazaré. Com o passar dos anos, a tímida manifestação local ganhou notoriedade no cenário folclórico regional e nacional e, em virtude disso, foi criado, em 1997, o Parque do Ingá, destinado exclusivamente às cirandas. A criação do anfiteatro com capacidade para vinte mil pessoas precipitou a idealização de um festival próprio, dirigido unicamente à apresentação das Cirandas. No mesmo ano da criação do Parque do Ingá, foi realizado o primeiro Festival de Cirandas de Manacapuru, contando com as Cirandas: Flor Matizada, Tradicional e Guerreiros Mura, sendo então estabelecida uma data fixa para a realização do mesmo: o último final de semana do mês de agosto, sendo destinada uma noite para a apresentação de cada ciranda.

- Casa da Restauração
A curiosa denominação prende-se ao fato de que seus proprietários, de origem lusitana, desejavam prestar uma homenagem à restauração na nação portuguesa que ficara sob jugo espanhol durante 60 anos. A Restauração foi, sem dúvida, a mais importante casa de comércio da região e não se tratava apenas de uma loja, mas de uma casa de aviamentos fornecendo mercadorias para os caboclos em troca de produtos naturais que eram a base da economia naquela época. O prédio, hoje, totalmente recuperado é uma parada obrigatória para aqueles que desejam conhecer um pouco da história da cidade.

- Paraíso D’Angelo
Dentre as várias opções de ecoturismo, ou locais agradáveis que visitamos, uma sobretudo se destaca que é o ‘Complexo Turístico Paraíso D’Angelo’. Às margens do belo lago do Miriti, com uma infra-estrutura que inclui hotel, restaurante, cabanas, tobo-água, dentre outras, chama a atenção pela serenidade de cada um de seus integrantes a começar pelo amigo Ângelo. Conversar com o senhor Ângelo João Saraiva, que se caracteriza como um italiano-cearense-amazonense, é um privilégio. Por isso fizemos questão de fazer a entrevista para a televisão local nas suas instalações e partir para Iranduba também de seu paraíso. Os entalhes do hotel ‘Itaceam’, artista plástico o bom gosto da decoração do restaurante são realmente encantadores e em cada um destes lugares a marca D’Angelo está presente. O filho da amiga Mara passeou conosco no caiaque pelo lago Miriti.

- Poluição
A cidade que se diz voltada para o meio-ambiente tem uma grande mácula no centro de sua cidade que é a Serraria Porto das Madeiras na frente do Hotel Boa Vida onde ficamos hospedados. A poluição física e sonora não combina com a bela cidade de Manacapuru.

- Conclusão
A receptividade, por parte dos amigos de Manacapuru, foi fantástica. Guardaremos com carinho cada momento passado ao seu lado e, quem sabe, retornemos no último fim de semana de agosto para o Festival de Cirandas. Nosso muito obrigado ao Secretário e às amigas Mara e Zilmara, da Secretaria de Turismo e Meio Ambiente do município, aos membros do Batalhão da Polícia Militar, em especial aos policiais Matos e Farissa, nossos anjos da guarda, ao senhor D’Angelo, seu filho e demais funcionários do Paraíso D’Angelo’, aos proprietários do Hotel Boa Vida e seus colaboradores e a todos aqueles com quem, de uma forma ou outra, tivemos a oportunidade de travar contato na cidade de Manacapuru.

19-22 Janeiro: Anamã/ Manacapuru

Mensagem do Gen Elieser Girão Monteiro Filho

Meu amigo e irmão Coronel Hiram,
Tenho a certeza de que a grandeza de seu desafio
é proporcional ao ser humano que você representa.
Espero que Deus continue lhe abençoando sempre.

TFASEEEEEEEEEEELLLLLLVA

ELIESER GIRÃO MONTEIRO FILHO

Mensagem do General Vasconcellos, Gen Bda Cmt 10a Bda Inf Mtz

Grande Hiram, meu caro amigo, saudações natalinas! Aqui do Recife, sentado no apartamento, em frente à praia de Boa Viagem, passeando pela Internet, me deparo com a grandeza do sonho em realização, e me lembro do teu extraordinário esforço para viabilizar a expedição. Notável exemplo, que dará ainda muito assunto a quem deparar com os registros da viagem, daqui algum tempo (vai sair um livro, pois não?). Estou acompanhando a viagem de vocês, torcendo pelo sucesso e curtindo as notícias. Com muita inveja, devo confessar. Um Feliz Dia de Natal, um maravilhoso Ano Novo, com sorte, saúde e muitas alegrias. Honra aos bravos de espírito, aos fortes de físico, aos que têm ideais. Parabéns! Um baita abraço,
Fernando Vasconcellos Pereira

Gen. Vasconcellos e o Clube de História do CMPA, março/2008

Mensagem do Coronel Jarbas Gonçalves Passarinho (Ex-aluno da Escola Preparatória de Porto Alegre e Diretor da Revista Hyloea, 1939)

Coronel Hiram,
Somos camaradas de farda. Sou Coronel Ref. de EMaior de Art. Nasci em Xapuri, onde também nasceu o famoso Adib Jatene. Aos 3 para 4 anos, minha família voltou para Belém do Pará, onde fiz os estudos primário, secundário e colegial. Fiz parte da primeira turma da Escola Preparatória de Cadetes em Porto Alegre. Em 1953/55, cursei da ECEME. No Comando Militar da Amazônia, cuja sede era em Belém, passei meus últimos dez anos de oficial de Estado Maior. Fui chefe de seções e do Estado Maior. Conheci a fímbria norte da Amazônia, inspecionando e apoiando os Pelotões de Fronteira e a Cia de Inf. de Guajará Mirim. Duas monografias (que eram exigidas durante o estágio probatório para entrar para o quadro do QUEMA): Estudo Geo-militar da Bacia Amazônica e Vias Prováveis de Invasão foram aprovadas pelo EM do Exército. Faço este preâmbulo para salientar que, a despeito de ter estudado muito sobre a Amazônia, nunca tive uma oportunidade como a que o senhor está tendo de conhecê-la, na intimidade da floresta, usando os rios que os colonizadores portugueses singraram nos séc. 17 e 18. A despeito de meu tempo ser tomado por artigos para cinco jornais principais de capitais, palestras e sobretudo debate, pouco tempo disponho para chegar aos e-mails. Sempre que os leio, desde o primeiro seu que li, não os perco. Parabéns por sua iniciativa.
Abs. Jarbas Passarinho

Anamã

“Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

Por Hiram Reis e Silva (Anamã, AM - 18 de janeiro de 2009)

- Largada para Anamã
Ultimei os preparativos para a partida e me recostei para relaxar. Lá pelas 20h um policial militar se apresentou informando que o Coronel Rômulo havia determinado que a PM de Beruri me prestasse apoio incondicional. Pedi apenas que lá pelas 05h30min eles me ajudassem, com a viatura, a transportar o material do Hotel para o caiaque. Os PM chegaram muito antes do combinado, às 04h30min, e acabei partindo antes de clarear o dia às 05h15min.

- 'À hora é à hora'
Recordei uma passagem na Academia Militar das Agulhas Negras, cujo ensinamento guardei para o resto da vida. O então Cadete Reis apresentou o pelotão de engenharia ao instrutor de Educação Física, Cap Serpa, 7 minutos antes da hora prevista. O capitão, sem pestanejar, determinou que eu retornasse com o pelotão e o apresentasse na hora marcada. Na oportunidade, suas palavras textuais foram 'À hora não é antes, nem depois, a hora é à hora'. Desde então tenho pautado meus compromissos seguindo o ensinamento do antigo instrutor. Logicamente não quis causar constrangimentos ao prestativo militar da PM e levantei da cama e alterei minha programação.

- Navegando à noite
O sol só despertou uma hora depois, quando eu já ultrapassava os limites da Ilha de Anamã, no Purus. Ao contrário dos demais alvoreceres, o silêncio era opressor, não havia encantamento, a sinfonia dos pássaros não aconteceu. Apenas o bater das pás dos remos na água, o salto dos botos tucuxis e sua vigorosa respiração quebravam a monotonia.
Minha atenção foi despertada para as alfaces d’água (Pistia Stratiotes) do Purus. Elas são enormes, em toda a viagem não as havia visto tão grandes, algumas alcançam 50 centímetros de diâmetro. Só parei na foz, no mesmo acampamento de pescadores onde aportáramos na ida para Beruri. O rio das contradições, heróico e cruel, deixara marcas profundas na nossa expedição. O Romeu teve de percorrer os 150 quilômetros até Manacapuru de motor, tendo em vista a avaria sofrida pelo seu caiaque. Os amigos pescadores se surpreenderam com a notícia.

- Parada na Ilha
Parei na extremidade de jusante da Ilha do Purus ou Gabriel, afinal agora as duas são uma só, para ajustar o GPS. Calibrei e me dirigi à foz do Anamã. Faltando aproximadamente 500 metros para a foz, comecei a prestar atenção nas embarcações e simultaneamente uma desapareceu na margem, ao mesmo tempo em que os botos tucuxis surgiram no alinhamento da proa e da foz.

- Anamã
Chegando a Anamã acionei a PM, que me ajudou a descarregar o caiaque e estacioná-lo em um flutuante próximo. Fui alojado em um Hotel próximo à prefeitura, tomei um banho e fui almoçar em um quiosque na bela orla do Anamã. A limpeza e o charme das casas de madeira pintadas com cores vivas encantaram-me. Até agora a sujeira, o lixo e os urubus eram uma constante em todas as comunidades e cidades visitadas. Anamã é um modelo para as demais cidades e sua população ordeira e hospitaleira não foge à regra amazônica.

18 Janeiro: Beruri/Anamã

Purus

“Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

Por Hiram Reis e Silva (Beruri, AM, 17 de janeiro de 2009).

- Ansiedade
Remei forte até chegar ao Purus, a ansiedade tinha tomado conta de mim e eu só pensava em uma coisa, tinha um só objetivo que era conhecer o rio heróico que, aliado à tenacidade e à bravura de um Plácido de Castro, foi responsável por mais uma estrela no nosso pavilhão nacional, o Acre. O rio do altruísmo que, junto à cultura e a abnegação do imortal Euclides da Cunha, permitiu que fossem definidas com exatidão as verdadeiras fronteiras brasileiras com o Peru. As imagens perpassavam pela minha mente numa fantástica velocidade e eu, ora mergulhando no passado, ora no presente, viajava ao sabor dos acontecimentos de outrora misturados às cenas de agora.

- Purus Épico
O Purus de passagens épicas cobrava um alto tributo à nossa expedição. Parece que o valoroso rio queria dar mostras do seu poder, da sua força, exigindo de nós um respeito e uma atenção digna da sua importância histórica. Por ele haviam passado alguns desbravadores em busca do conhecimento e da fortuna, muitos em busca da simples sobrevivência, idealistas buscando estender nossas fronteiras pela força do direito e guerreiros tentando fazê-lo pelo direito da força.
O Purus não é apenas um rio, mas um protagonista que, junto com homens de valor, gravou belas páginas na história da nossa nação. Homens que enfrentaram o desconhecido, que subjugaram a mata, que a analisaram, estudaram, mas também homens que tiveram suas vidas arrebatadas pela força da natureza e cujos destinos foram manipulados inexoravelmente pelas titânicas energias telúricas.
O Purus merece nosso respeito pelo que foi, pelo que é e pelas contraditórias passagens levadas a efeito na sua calha. Um rio patriota que guarda nas suas águas as imagens imaculadas de um Plácido de Castro e de um Euclides da Cunha. Um rio de ambição e sem consciência, que reflete as carrancas dos ambiciosos seringalistas que escravizaram os seringueiros nordestinos e suas famílias.
O Purus pré-histórico é tudo isso e muito mais. Nas suas calhas, foram descobertos os restos de gigantescos animais - como o Purussauru - que dominavam as águas no Mar Pebas.
Nosso preito de respeito a esta artéria viva da nacionalidade brasileira que reflete, nas suas águas, a pujança de uma raça do porvir, alicerçada no invulgar passado, mas com os corações e mentes voltados para o futuro.

Codajás/Beruri

“Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

Por Hiram Reis e Silva (Beruri, AM, 17 de janeiro de 2009)

- Largada para Beruri
Como a previsão era subirmos o Purus apoiados por um barco a motor, não nos preocupamos em sair muito cedo. Tomamos café no restaurante ‘Cinco Irmãos’ às 06h30min, e o sargento Osmar, da Polícia Militar, apoiou-nos no transporte da carga até os caiaques. Depois de uma despedida festiva por parte dos amigos da Consag, partimos rumo ao Purus às 08h20min.
Paramos logo em seguida para comer algumas araçás, abundantes às margens do lago; as frutas são semelhantes a pitangas, com sabor de acerola. As águas pretas do lago contrastam com as do Solimões. Voltar ao Solimões, deixando o hospitaleiro povo de Anori - em especial nosso ‘anjo da guarda’ amigo da Polícia Militar Sargento Osmar - nos enche de nostalgia e de expectativa em relação às novas amizades e plagas que iremos conhecer.

- Deslocamento para o Purus
‘A partida para o alto Purus é ainda o meu maior, o meu mais belo e arrojado ideal’ (Euclides da Cunha)

O deslocamento até a boca do Purus foi rápido, graças à correnteza do Rio-Mar. Enfrentamos uma chuva forte que me obrigou a procurar abrigo em um Flutuante para guardar a câmera fotográfica. Chegamos à foz do Purus por volta das 11h e aportamos junto a um grupo de pescadores, aguardando a ‘voadeira’ que nos rebocaria rio acima. Os botos passaram à nossa frente em sentido contrário ao deslocamento que iríamos percorrer. Seria um aviso?

- Tragédia no Purus
O soldado da Polícia Militar de Anori, Pedro Pereira, chegou pouco tempo depois com a ‘voadeira’. O meu caiaque, como era menor, foi colocado atravessado sobre a ‘voadeira’ e o duplo foi rebocado a meia velocidade. Já próximo de Beruri a corda que tracionava o caiaque rompeu. O frágil caiaque da Opium havia praticamente partido em dois e por pouco não naufragou. Conseguimos rebocá-lo até a margem e embarcá-lo em motor que se deslocava rumo à Beruri.

- Hospitalidade Amazônica
Paramos em um flutuante próximo ao porto e o encarregado permitiu que colocássemos os caiaques em um flutuante ao lado, que se encontrava em construção. Fui tentar fazer contato com o Sargento Pereira, comandante da Polícia Militar de Beruri. Estava procurando um moto-táxi, quando o professor Sidney Oliveira Miranda se ofereceu para me dar uma carona até a delegacia e depois até a residência do sargento. O Pereira pediu ao filho que me levasse até a delegacia, onde se encontrava a viatura militar, enquanto se fardava. Providenciou um hotel (o Milena) junto ao porto e deslocamo-nos até o flutuante onde o Romeu e a Maria Helena já nos aguardavam.

- 1° dia em Beruri
Após o banho, fui até um telefone público informar a professora Rosângela do ocorrido e pedir a ela que repassasse a informação aos nossos colaboradores e familiares. O Romeu conseguiu alguém para ‘consertar’ o caiaque e eu fui até o restaurante ‘Tudo de Bom’ para tomar um suco de graviola. Enquanto colocava em dia os apontamentos do Rio-Mar, emprestei a máquina fotográfica para a Maria Helena tirar algumas fotos.

- 2° dia em Beruri
Acordei cedo para tirar algumas fotos e tentar entrar em contato com a Polícia Militar. O pouco caso dos agentes e policiais militares desde o dia anterior contrastava com o padrão que encontráramos até então em quase todas as localidades. Pedi à professora Rosângela para tentar entrar em contato com o Major Denildo, de Coari, para ver se através do comandante de Manacapuru conseguíamos um maior apoio por parte da polícia local. Como o restaurante ‘Tudo de Bom’ demorasse para abrir, acompanhei a Maria Helena até o restaurante Mandala para o café da manhã. Mandei um moto-táxi à casa do sargento Pereira e à delegacia e me dirigi a uma lan house para digitar os textos. Decidimos que seria melhor levar o caiaque para Manacapuru e tentar consertá-lo lá, contando com o apoio da Polícia Militar. O Romeu e a Maria Helena partiram no motor Silva Lopes e chegarão hoje à noite. Mantendo o planejamento, sairei amanhã às 06h direto para Anamã.
Veja as imagens clicando na foto a seguir

"Cada metro percorrido com a força de seus braços representa o esforço de quantos braços fizeram a Amazônia".

O Clube de História do Colégio Militar de Porto Alegre publica, nesta postagem, dois textos de autoria do Cel Hiram de Freitas Câmara (membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, ex-comandante do Colégio Militar de Fortaleza, ex-aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro). O primeiro texto, publicado no site da Turma Duque de Caxias (AMAN 62), esclarece a um amigo não ser ele o militar que rema na Amazônia. O segundo texto, gentilmente enviado ao Clube de História do CMPA, é uma autorização para publicação daquela mensagem no Diário de Bordo. Pela sua experiência na área de pesquisa em História e, especialmente, pela experiência de ter comandado uma instituição militar de ensino, o Cel Hiram de Freitas Câmara evidencia, dentre outros aspectos, a rica face pedagógica do Projeto Desafiando o Rio-Mar.

Texto 1:

Sou o Cel Hiram de Freitas Câmara, AMAN62. Um companheiro me solicitou informações sobre o Cel Hiram Reis e Silva, pois como sabia ser seu nome apenas Cel Hiram, imaginou que eu pudesse ser esse fantástico oficial que realiza, atualmente essa extrordinária façanha, fazendo, a remo em canoa, 1300 km no Rio Solimões, vencendo a correnteza do Rio-Mar, chamando a atenção da Brasil e do Mundo para a Soberania do Brasil sobre o território amazônida contido em suas fronteiras. Fiquei vaidoso só com a dúvida do companheiro, pois, infelizmente, não me seria possível intentar tal desafio físico. E fiquei feliz de ver que o esforço desse oficial do Exército começa a despertar o interesse de outros. Eis a minha resposta, que ofereço com muita sinceridade e orgulho, como homenagem ao meu xará, Cel Hiram Reis e Silva.
Estimado amigo................:
Não sou esse Hiram do e-mail. Mas, neste momento, gostaria de ser esse Coronel do Exército Brasileiro. No mínimo, afora todas as suas demais qualidades, por seu extraordinário vigor físico, já um Coronel - é verdade que doze turmas depois da nossa, o que não lhe reduz em nada seu valor. Apenas ajuda a justificar um pouco a nós mesmos, da turma de 62. Justificativa que, em contrapartida, também não reduz, em nada, o orgulho que sinto por esse militar brasileiro. Tenho acompanhado a demonstração de amor ao Brasil desse meu xará. Após intenso treinamento, partiu, com dois outros navegadores fluviais em canoas, sendo um deles, uma jovem. Estão vencendo a correnteza do Solimões, bem mais rude que no treinamento na Lagoa dos Patos, de Tabatinga a Manaus. Hiram Reis e Silva é metódico, disciplinado, obstinado, perseverante. Estudioso e pesquisador da Amazônia, talvez seja, hoje, o mais bem informado brasileiro sobre a integralidade da Amazônia. Creio que haja uma simbologia própria, não sei se proposital, no fato dessa idéia haver nascido no mais afastado dos Estados em relação à Amazônia. O alcance nacional é vitalizado pelo brasileiro que sai de seus pagos para colocar a atenção do Brasil, dos vizinhos e do restante do mundo, sobre a Amazônia. Assim, sua "pequena bandeira" foi organizada no Rio Grande Sul e vivida no Norte do País. O ambiente em que o sonho gestou guarda, também, um simbolismo intuído: na energia de jovens -dos melhores do País-, que estudam no Colégio Militar de Porto Alegre. Foram trabalhos em grupo e individuais, exposições, apresentações, palestras e concursos, os instrumentos que contagiaram o educandário. A preparação foi muito suada. Quem quiser saber como ocorreu, basta visitar o site do Colégio Militar de Porto Alegre. Na mídia nacional, afora a gaúcha, nada se falou sobre a missão voluntária o que certamente se explica pelo custo excessivo do marketing. Mas alegrou-me saber que o Professor e Dr Marcos Coimbra, de quem sou admirador, procurou, por um amigo militar, saber sobre Hiram Reis e Silva. Mas vou descobrindo não ser necessário. E assim, por confusão de nomes, você chegou a mim. Mas assim é quando o universo conspira a favor: sem conhecê-lo pessoalmente, tenho vibrado com ele, a cada remada. Pois o que dele sei é o que tenho lido no site dele e naqueles aos quais sou conduzido. Nascido de semente boa, o assunto vai chegando ao conhecimento dos brasileiros, boca a boca, e-mail a e-mail. É que a realidade do dia a dia da missão, tem concretizado o que ela significa. No silêncio de suas remadas no Solimões, mesmo que não fosse essa a intenção, ele está despertando a atenção de multiplicadores brasileiros e do mundo para o fato de que, ao remar, ele reafirma que cada metro percorrido com a força de seus braços representa o esforço de quantos braços fizeram a Amazônia. E de quantas vidas ficaram na imensidão da Hiléia para legar, a esta geração, o território que recebemos. Uma geração que parece decidida a demonstrar ao mundo um raro exemplo ao inverso daquele de Reis e Silva: o da ingratidão histórica com aqueles civis e militares capazes - de desde a consolidação de suas fronteiras - manter o Brasil a salvo de ambições que não são imaginadas, mas provadas, de nações mais poderosas. Cada gota de suor que corre pelo corpo desse brasileiro raro representa uma gota de sangue daqueles a quem a Pátria Brasileira deve seu território, ampliado além de Tordesilhas, no quadro de moralidade jurídica que lhes foi concedida pela União das Coroas Ibéricas, e confirmada pela lucidez, equilíbrio e maturidade da diplomacia conduzida por um português nascido no Brasil - Alexandre de Gusmão -, no Brasil Colônia, e os Rio Branco, no Brasil Independente. Esse Cáceres da primeira década do século XXI, impulsionou o próprio espírito e levou o próprio corpo ao esforço hercúleo de mais de 1000 kms a remo. Nenhum comando, nenhuma ordem recebeu senão de seu espírito de brasilidade intenso, forjado na Academia Militar das Agulhas Negras, e nas que a antecederam, desde 1811, e desenvolvido e revelado, em seu espírito, no desafio a que se impôs, de ser exemplo a seus jovens alunos. Amigo........., embora eu tenha servido na Amazônia, com o mesmo sentimento, e haver comandado um Colégio Militar, faltar-me-ia, como fato essencial, no mínimo, o vigor físico para ser esse Hiram
Com meu abraço, Hiram (o de Freitas Câmara).


Texto 2:

Prezada Professora Silvana Schuler Pineda,
Com enorme satisfação, envio-lhe esta resposta.
Quando o "índio véio" solta a flecha, já sem a direção de outrora, não sabe bem onde vai atingir. Quando se abre o coração na Internet, é como flecha de "índio véio". Que bom que atingiu terreno bom e fértil, na leitura de vocês. Quando tomei conhecimento daquilo em que esse meu já estimado xará decidira investir seu tempo e sua energia, embarquei junto com ele. Já conhecia os trabalhos de Hiram Reis e Silva - a quem não tenho a satisfação de conhecer pessoalmente - pela Internet, por seus trabalhos sobre a Amazônia, onde servi como Aspirante e 2o. Tenente. Mais tarde, a vida me premiou como um dos coordenadores de um Projeto de Educação a Distância na Amazônia, e por quatro anos, estive muitas vezes ajudando a instalar ou visitando telepostos, ao longo das barrancas de muitos igapós, furos e igarapés de cinco estados da Amazônia. Longe da saga de Hiram Reis, não remava, conduzido em voadeiras. Portanto, eis outro motivo, além de ser xará, que me aproximou do site sobre a Amazônia, que acompanho desde bem antes, e onde li, talvez a mais completa integração de conhecimentos históricos da questão do Pirara. Sempre interpretei a História como base da construção de um futuro viável e muitas vezes lamento que pessoas responsáveis pela vida de muitos, não só desprezam a História - até a de suas vidas - como ajudam a retirar as sólidas camadas sedimentadas ao longo do tempo, para reconstruir sobre uma falsa história ou uma não-história(aqui, minúsculas, mesmo), a vida de uma Nação, como se fosse possível destruir a verdade de seu passado, a base. E mesmo que se não a destruíssem, mas - como coisa de menor importância - a esquecessem, sem essa memória, a estrada a percorrer, sempre plena de obstáculos, será ainda mais difícil, para aqueles que não reconheçam os contornos, já trilhados no passado. Obstáculos e contornos, que, para agravar, quase nunca são físicos. A Filosofia ajuda a entender a Vida - e quanto de Filosofia há em interpretações que penas mais finas poderiam garimpar nesse desafio de Vida de Hiram. A História nos faz evitar erros já cometidos no passado. Ou, como as remadas de Hiram, nos trazem à mente o passado da Amazônia que ele redesperta, e sacode a consciência de tantos sobre como ela se fez como um tesouro conquistado pelo cérebro dos diplomatas do passado e pela audácia dos bandeirantes. Ao entrar no site do Colégio Militar de Porto Alegre para visitá-lo, vocês ainda preparavam a epopéia e Hiram treinava na Lagoa dos Patos, se não me engano. E chamou-me a atenção, o fato de que era a área de História que dava vida ao trabalho dos alunos - sei que outras Cadeiras participaram e participam - mas eram o Clube e era a Cadeira de História que energizavam o espírito dos jovens alunos e, eis, o terceiro ponto de contato. Lembrei-me dos esforços dos mestres de História no Colégio Militar de Fortaleza que eu comandei, no início da década de 90, e como se empenhavam em dar vida a fatos que já haviam sido vida, e refaziam sua energia, abrindo caminho para que os alunos não cometessem erros já passados. Estejam certas, Professoras Silvana e Patrícia, que estes seus alunos e alunas levarão para o resto da vida esta experiência maravilhosa. Do Coronel Hiram Reis, o exemplo espartano, no sentido da entrega por fazer vivo um ideal, arrostando a qualquer sacrifício físico; o de vocês, no viés ateniense, de fazer de uma epopéia uma lição de vida para esta geração de alunos do Colégio Militar de Porto Alegre. O aproveitamento do que escrevi, tão sinceramente, sobre o Coronel Hiram Reis, se for uma contribuição para com este momento tão bonito de vocês todos deste Colégio, só me fará mais feliz, como se vocês estivessem me admitindo a bordo e me honrassem com uma remada.
Com meu apreço e respeito,
Hiram Câmara, Cel Ref Inf

Codajás/Anori

Por Hiram Reis e Silva (Anori, Am, 15 de janeiro de 2009)

- Codajás
À tarde do dia 13 de janeiro, saímos com o secretário de Cultura Cleuci Barbosa Alves para uma volta pelo município. Cleuci nos levou até as plantações de açaí e ao sítio onde será instalada a usina termelétrica da cidade movida pelo gás natural de urucu. O secretário afirmou que, infelizmente, as empresas contratadas pela Petrobras estão poluindo igarapés e comprometendo vertentes d'água sem qualquer comprometimento com o meio-ambiente. Ao retornar, já na Casa de Cultura de Codajás, fotografei algumas peças de cerâmica indígena encontradas às margens do Badajós. Segundo o secretário, nenhuma instituição científica realizou levantamentos no sítio arqueológico de Badajós.
Gostaria de deixar registrada um agradecimento aos proprietários e funcionários do Hotel Cunha e Cunha pela qualidade das instalações e atendimento prestados.

- Largada para Anori
Acordamos às 04:30 horas e solicitei à Polícia Militar para antecipar o horário, antes agendado para as 05:30 horas, para carregar nossos pertences e partimos às 05:30 horas. Na primeira curva do rio Solimões, fiz uma parada como era de praxe para descansar após 01:40 horas de navegação e 21 km percorridos. O Romeu e a Maria Helena tinham avançado por demais e continuaram remando sumindo da minha linha de visada. Após tomar um pouco d'água e comer umas bananas retornei ao rio procurando pelos dois parceiros com a resolução de parar novamente só após alcançá-los. Mantive minhas remadas compassadas tentando avistar os dois remadores.
Continuei remando sem parar tentando encontrar a dupla que, mais tarde tomei conhecimento, devo tê-los ultrapassado quando pararam em um flutuante.

- Chegada em Anori
Avistei a foz do Anori e fui novamente saudado por botos tucuxis e um enorme boto vermelho, o maior e mais belo que já havia visto. Ele não possuía nenhum matiz de cinza e exibia seu dorso de um vermelho formidavelmente homogêneo. Ao passar por alguns flutuantes e entrar em um dos acessos ao lago, a correnteza forte me assustou e procurei navegar pelo lado de dentro das curvas. Como já fazia algum tempo que eu não ingerira alimento ou líquido, resolvi saborear algumas 'araçás' que abundam nas margens do lago. A frutinha, muito semelhante no aspecto e no gosto às acerolas, me revitalizaram e consegui, inclusive, emparelhar com um dos motores que se dirigia a Anori e acompanhá-lo até o porto.

- A 'mão amiga' da Polícia Militar, da Consag e Prefeitura de Anori
Aportei no flutuante da Consag, mais uma vez, e um dos membros da companhia que já nos conhecia desde Coari fez as apresentações e rapidamente o caiaque foi guardado pelos amigos da Consag no depósito. Nos serviram de uma caldeirada no flutuante mesmo e acionaram pelo 190 nossos 'anjos da guarda' que chefiados pelo sargento Osmar se apresentaram imediatamente no local e carregaram nosso material para a viatura policial. Antes de embarcarmos na viatura o Sargento Osmar nos apresentou o vice-prefeito do município, senhor Ângelo Barroso, que foi nos receber pessoalmente no porto e nos franqueou a alimentação e pousada na sua cidade. O Osmar saiu conosco para tentar encontrar acomodações nos hotéis da cidade lotados com funcionários da Consag. Fui levado até o restaurante Cinco irmãos para nossas refeições e depois de uma busca exaustiva fomos acomodados nos Hotéis SK e Maria Isabel.

- Primeiro dia em Anori (14 de janeiro de 2009)
Tomei um bom banho, lavei minhas roupas, descansei um pouco e me dirigi ao restaurante lá pelas 15:00 horas para o almoço. A Maria Helena passou pela rua enquanto eu almoçava e eu a chamei. Depois do almoço fui até a Lan House e consegui contatar a minha filha Vanessa, o amigo Araújo e a amiga Mary. Como estava lenta demais, desisti de enviar as fotos de Coari que tinha tirado no último dia. Às 20:00 concedemos uma entrevista, na Rádio Comunitária Anori FM, aos dinâmicos repórteres Roberto e Letícia que nos agendaram outra para as 08:00 horas do dia seguinte.

- Segundo dia em Anori (15 de janeiro de 2009)
Depois do café às 07:00 horas, nos deslocamos para a rádio e no caminho fomos convidados pela senhora Nazaré que ouvira a entrevista do dia anterior para um café. Depois da entrevista o Romeu foi para o porto para mostrar os caiaques para a gurizada local e eu saí com o Secretário do Turismo e Meio Ambiente senhor Edir Mota Moura. Após o passeio, checamos que o secretário tem muito que fazer. O município carece de um Centro Cultural, de uma casa da Cultura, o balneário planejado pela administração anterior ficou só no papel ... Embora não seja diretamente ligada à sua pasta as escolas tanto do município quanto do estado, que visitamos, estão muito longe daquelas que pudemos observar ao longo da calha do Solimões. Embora a infra-estrutura seja fácil de reparar achamos que o desafio maior seja o de tentar comprometer a comunidade com a manutenção e preservação do patrimônio público. Concluímos nosso tour pela cidade entrevistando duas queridas freirinhas gaúchas cujo teor da entrevista vamos colocar no blog.

- Agradecimento a Anori
Gostaríamos de agradecer especialmente ao Sargento PM Osmar, ao Vice-Prefeito Ângelo Barros e seu secretário do Turismo e Meio-Ambiente Edir Mota Alves, ao pessoal da Consag e aos repórteres Letícia e Roberto, da Anori FM, por tornarem nossa estada na cidade tão agradável e produtiva.
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14-15 janeiro:Codajás/Anori

12-13 jan: S Fco Camarazinho-Codajás

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12-13 jan: S Fco Camarazinho-Codajás

11 jan: Coari-S Fco Camarazinho

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11 jan: Coari-S Fco Camarazinho

Coari, uma cidade a todo gás

Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

Por Hiram Reis e Silva (Coari, AM - 10 de janeiro de 2009)

- Coari
A capital amazônica do gás natural se debruça sobre as águas do Rio Solimões entre os Lagos de Coari e Mamiá. Sua herança indígena está arraigada na diversidade e na força dos índios Catuxy, Irijus, Jumas, Jurimauas, Passés, Purus, Solimões, Uaiupis, Uamanis e Uaupés. O primeiro núcleo de povoamento foi uma aldeia indígena fundada no início do século XVIII pelo padre jesuíta Samuel Fritz, com a mesma denominação do rio que banhava o pequeno povoado. Segundo Ulysses Pennafort, o termo Coari vem das palavras indígenas ‘Coaya Cory’, ou ‘Huary-yu’, que significa respectivamente ‘rio do ouro’ e ‘rio dos deuses’. A denominação dada ao rio estendeu-se ao lago e, posteriormente, ao município.
Sobre as índias (trecho de autoria do padre João Daniel em ‘Tesouro Descoberto’: ‘Algumas fêmeas a que além de suas feições lindíssimas, têm os olhos verdes e outros azuis com uma esperteza e viveza tão engraçadas que podem ombrear com as mais escolhidas brancas’. Na época, os portugueses já haviam miscigenado com as aborígines, embora durante muito tempo este ato fosse repudiado e proibido pela igreja, que não os consideravam como humanos. No entender de João Daniel, estas índias deveriam ter origem diversa dos demais povos da floresta, não admitindo que os portugueses pudessem estar contrariando a determinação da igreja.
Em 1759, a aldeia é elevada a Lugar com o nome de Alvelos. Em 1833, foi o Lugar Alvelos elevado à Freguesia, sob a invocação de Nossa Senhora Santana. Em 1854, a sede da freguesia foi transferida para a foz do lago de Coari. Em 2 de dezembro de 1874 foi elevada a vila, em 2 de agosto de 1932 a Vila de Coari é elevada a categoria de cidade. Em 1890 é instalado o termo judiciário de Coari e em 1891 é criada a comarca de Coari. Em 1913 é suprimida a comarca de Coari, ficando seu Termo Judiciário subordinado a Tefé. Em 1916 é reinstalada a comarca de Coari, continuando o Termo Judiciário subordinado a Tefé. Em 1922 é suprimida novamente a comarca e em 1924 restaura-se definitivamente a comarca de Coari, compreendendo os Termos de Coari, Manacapuru e Codajás. Em 1932 Coari é elevada à categoria de cidade.
A cidade conhecida anteriormente pela produção de banana, hoje se destaca por produzir petróleo e gás natural na região de Urucu. O gasoduto vai ligar a província produtora ao mercado consumidor localizado em Manaus, a 450 km de distância, tem a previsão de conclusão e início de operação para o 1º semestre de 2009.

- Amazônia e o petróleo
A exploração da Província Petrolífera do Rio Urucu iniciou em 1988, dois anos após a descoberta do primeiro poço. A reserva estimada é de mais de 70 milhões de barris de óleo e quase 300 milhões de barris de gás natural, que representam um quarto das reservas nacionais. O início da exploração data de 1917, quando o Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil realizou as primeiras sondagens.
Coari é o segundo PIB do Estado, graças aos royalties pagos pela Petrobras ao município do gás natural. A enorme jazida descoberta a cerca de 3 mil metros abaixo do solo fez com que a Petrobrás implantasse em suas terras a Província Petrolífera do Rio Urucu, viabilizando a prospecção, o transporte e o escoamento do produto até o Solimões e, de lá, para a Refinaria de Manaus (Reman).
Desde o primeiro poço, construído em 1986, até hoje, Coari teve seu PIB maximizado. Hoje está girando em torno dos R$ 20 milhões em royalties transferidos pela Petrobrás ao município, além de R$ 1 milhão pago como prêmio ao grande volume de produção ou rentabilidade. É o município, com exploração continental, que mais recebe royalties, perdendo apenas para os da região da bacia de Campos.
O valor dos royalties relativos à exploração de petróleo e do gás natural é repassado à Secretaria do Tesouro Nacional. O valor depende de fatores como riscos geológicos e expectativas de produção, mas gira entre 5% e 10% do total da produção durante um mês. A Agência Nacional do Petróleo é quem apura o valor devido aos beneficiários e garante o pagamento, que é dividido entre estados e municípios produtores.

- Coari a todo gás
Apenas nos últimos anos, na administração do prefeito Manoel Adail Amaral Pinheiro (PL), é que grandes projetos e obras tem sido levados a efeito com estes recursos. Os royalties têm sido aplicados na manutenção de uma série de projetos sociais, entre eles o centro de convivência do idoso, barcos do cidadão, distribuição de enxovais para mães carentes, pavimentação de ruas, ginásios desportivos, escolas, construção de casas populares, eletrificação e saneamento básico. A cidade se destaca dentre todas no norte/nordeste do país. Conforme as próprias palavras do prefeito, Coari deu um ‘salto econômico e social’ de fazer inveja a todos os municípios do pais. Quiséramos nós que os investimentos oriundos dos royalties fossem sempre aplicados na educação, saúde, segurança e moradias populares.
Visitando a cidade, pode-se verificar a qualidade das obras realizadas pela prefeitura, sempre acompanhadas de um tratamento paisagístico adequado. O asfaltamento das ruas e a beleza dos parques e jardins realmente tornam Coari uma pérola incrustada em plena hiléia. A administração relatou-nos que está em andamento um projeto de revitalização do porto e a retirada das palafitas da beira do lago, transferindo os moradores para casas populares.

- Hospitalidade Coariense
Desde que chegamos, à cidade, a cordialidade com que fomos tratados foi marcante, tanto pela Polícia Militar do Amazonas, na pessoa do seu comandante o senhor Major Denildo Lima Brilhante, pela Prefeitura de Coari - representada pelo secretario do Meio Ambiente e Turismo, senhor Alvimar da Costa Monteiro, e o secretário dos esportes, senhor Joabe de Lima Rocha - e pela UAB (Universidade Aberta do Brasil), cuja coordenadora senhora Eliana de Menezes Salgado gentilmente nos abrigou.
O Major Denildo foi nosso guia turístico, nosso interlocutor com as demais autoridades e, principalmente, um amigo com quem pudemos contar em todos os momentos. Os secretários deixaram de lado seus afazeres para atender nosso desejo entrevistá-los e de conhecer o Lago Coari e fotografá-lo; a senhora Eliana da UAB, além de nos abrigar, permitiu que usássemos os computadores da Universidade.
Gostaríamos de deixar aqui registrado nosso agradecimento ao apoio incondicional que recebemos dos amigos mencionados anteriormente, sem o quê nossa pesquisa seria bastante dificultada.

Major Denildo

Reflexões em Mamirauá

Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)
Por Hiram Reis e Silva (Coari, AM - 07 de janeiro de 2009)

A chuva torrencial nos embala e nos leva à reflexão. Contemplar as imensas ‘ilhas’ de aguapés e capim-memeca descendo o ‘cano’ do Mamiruá provoca uma profunda nostalgia. A saudade dos entes queridos que nos têm apoiado incondicionalmente nessa expedição de brasilidade, de cultura e de hospitalidade amazônica toma conta de nossa mente e nos leva a rememorar a participação de cada um deles nesse projeto de tantos nomes mas que, mais que qualquer outro, deve ser conhecido como ‘Projeto de Amizade’.
O precário suporte de que dispúnhamos no começo desta empreitada pelo Solimões foi compensado, inicialmente, pelo apoio de parentes e amigos e, mais tarde, pelo de colaboradores voluntários que, como nós, comungam dos mesmos e patrióticos ideais. Alguns contribuíram financeiramente, outros com equipamentos ou utensílios para viagem e outros ainda - como a equipe de apoio - publicando nossas imagens, textos e entrevistas, para que os interessados em acompanhar nosso deslocamento pudessem fazê-lo na forma de um diário de bordo.
Fomos cativando e sendo cativados por amigos ao longo de nossa jornada. Amigos que nos acolheram no aconchego de seus lares ou de suas comunidades e nos incentivaram. A cada um deles, sejam comandantes militares ou policiais militares, prefeitos e secretários municipais, caciques, líderes comunitários, presidentes ou administradores rurais, empresários, professores, jornalistas ou simplesmente povos da floresta.
Os dias correm céleres e a saudade da amazônica hospitalidade já começa a nos afetar. Guardaremos eternamente na lembrança a imagem e o carinho de cada um que, de alguma maneira, marcou nossas vidas nessa expedição pelo Rio-Máximo.

Tefé/Lago Ipixúna

Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

Por Hiram Reis e Silva (Coari, AM - 07 de janeiro de 2009)

- 31 de dezembro de 2008
O almoço do dia 31 de dezembro, chegada em Tefé, foi por conta do César: um escabeche de pirarucu, fruto do manejo sustentável. Após a refeição, fomos conhecer as instalações do Instituto Mamirauá. Ficamos impressionados em relação ao tratamento paisagístico, à parte arquitetônica e aos equipamentos que certamente justificam seu reconhecimento, junto com o corpo de pesquisadores de projeção internacional, como centro de excelência em pesquisas relacionadas ao meio ambiente e à ecologia animal.
A passagem do ano foi às margens do lago Tefé, em um lugar conhecido como ‘Muralha’, com a apresentação de bandas e queima de fogos de artifício. Encontramos apenas um conhecido na multidão, o mestre Jonas - aquele dos peixes ornamentais - que nos convidou para o almoço na sua casa.

- 01 de janeiro de 2009
De manhã digitei os textos que havia redigido desde o Aranapu e, depois, chamamos o Manoel, zelador do flutuante Cauaçu, que nas horas de folga é moto-táxi, para nos levar até o Jonas. Após o almoço, retornamos ao Hotel de Trânsito dos Oficias e imediatamente após nossa chegada, o César e sua simpática esposa apareceram e nos convidaram para um passeio pela cidade e arredores. É impressionante observar o dinamismo e a competência deste jovem empreendedor. Mamirauá está de parabéns por contar nos seus quadros com um profissional deste quilate e capacidade de trabalho.

- 02 de janeiro de 2009
Concedemos, pela manhã, uma entrevista muito bem conduzida na rádio 101 FM. Logo após a entrevista, atendendo determinação do Major Cardoso, o sargento Plínio nos aguardava nas instalações da rádio, hipotecando total apoio por parte da 16ª Brigada de Infantaria de Selva, comandada pelo General de Brigada Racine Bezerra Lima Filho. Consegui então acesso ao computador do ensino a distância do Colégio Militar de Manaus e a isenção total das despesas com o Hotel de Trânsito.
À tarde, concedemos uma entrevista na Rádio Alternativa. O César já aguardava na porta para nos levar para um passeio no lago. O Walter BuonFino, que conhecêramos em Mamirauá, foi junto. O passeio foi fantástico; visitamos as praias de areias imaculadas de Nogueira e assistimos ao pôr-do-sol sobre o Lago Tefé e o documentamos, o que jamais iremos esquecer. O Walter, profissional da fotografia, dava dicas de como obter melhores fotos.
Fomos convidados pelo Walter para conhecer os amigos que o estavam hospedando: a Betina, conhecida como holandesa, e seu esposo. Não me senti muito à vontade ao saber que ambos haviam militado nas hostes do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), que tantos malefícios têm promovido em relação à soberania brasileira na região amazônica. Voltei cedo ao Hotel de Trânsito para continuar com o upload dos arquivos, que se arrastou madrugada adentro.

- Largada para Caiambé
O César, mais uma vez, com sua pontualidade e cordialidade chegou às 6h horas para nos levar até o porto. Despedimo-nos do querido amigo de Tefé e partimos para nossa jornada às 6h45min. Depois de duas paradas breves, estacionamos em um flutuante de Caiambé e saí em busca de abrigo.

- Hospedagem VIP
A senhora Valdecia dos Santos Silva, mais conhecida como Beti, secretária da Escola Estadual Amélia Lima, alojou-nos na sala de aula número 01, com ar condicionado, e nos franqueou o acesso às instalações sanitárias e cozinha da escola. Foi um tratamento VIP que não imaginávamos encontrar em um local tão ermo. O governo do estado do Amazonas entregou a escola em agosto de 2008, totalmente reformada e ampliada. O ar-condicionado das salas, longe de ser um luxo numa região destas, é uma necessidade. À tarde, saí pra registrar algumas imagens, subindo inclusive na caixa d’água da comunidade, enquanto o Romeu se envolvia com o remo e com a gurizada.

- Largada para Catuá (alterando para Lago Ipixúna)
Partimos às 6h30min, já programando estender nossa jornada de maneira que pudéssemos abreviar em um dia o deslocamento até Coari. Eu estava resolvido a passar meu aniversário em Coari.

- Jutica
Nossa primeira parada foi determinada, novamente, pelos amigos botos tucuxis, que cortaram a frente do caiaque apontando para a comunidade. Sem pestanejar, chamei o Romeu, que estava um pouco à frente, e embiquei para Jutica. Conheci o escritor e latifundiário, dono daquelas terras, Jones Cunha, que nos ofereceu um café com sucos, tapioca e pupunha além de me presentear com seu livro ‘Jutica, o brilho da terra’. Homem de visão empresarial, patriota e amante da natureza, mantém suas terras intocadas, onde os ribeirinhos se dedicam ao extrativismo. Montou uma agradável casa de hóspedes, que pretende destinar ao ecoturismo. O senhor Jones é mais um destes amazonenses que não interessam à mídia sensacionalista, a qual procura apenas mostrar aqueles que agridem a floresta.

- Santa Sofia
Alongando nosso trajeto, paramos no flutuante do ‘seu’ Plínio, conhecido como Bom Fim. Filho de Paraibano, migrou com sua família do Juruá por pressão de seringalistas. Aposentado, com os filhos criados e morando em Manaus, resolveu procurar sossego no pequeno vilarejo às margens do Lago Catuá, junto com sua amável esposa Conceição que é hoje a presidente da comunidade de Santa Sofia. Um contador de ‘causos’ nato, brindou-nos com uma série interminável de experiências vividas por ele e outras tantas por conhecidos seus, sempre colocando uma pitada de humor nos seus relatos. Já nos preparávamos para partir quando nos convidou pra almoçar e, como pretendíamos alongar nosso percurso, achamos que seria bom reforçar as energias antes de continuar. Lá pelas 14h nos despedimos e seguimos destino rumo à Comunidade Esperança - a comunidade dos 162 degraus.

- Esperança e os 162 degraus
Apesar de o seu Plínio afirmar que só encontraríamos Esperança depois de uma hora de remo, lá aportamos em 30 minutos. Encontramos o senhor Edson, como havia sugerido Bom Fim, que nos assegurou que o Flutuante cor-de-laranja do Jorge, à boca do lago Ipixúna, ficava a igual distância de Esperança a Santa Sofia. O mapa mostrava uma distância três vezes superior, mas subir aqueles 162 degraus até a escolinha, pelo menos duas vezes, carregando o material do caiaque, motivaram-nos a prosseguir viagem. É impressionante como os parâmetros de tempo e espaço nessa região são erroneamente dimensionados pelos ribeirinhos, inclusive os mais experientes.

- Lago Ipixúna
Chegamos ao flutuante do Jorge por volta das 16h30min horas e solicitamos que ele nos rebocasse até a comunidade Divino Espírito Santo no interior do lago. O administrador rural, inicialmente, apresentou-nos um local para acampar, sem quaisquer condições de higiene. Depois da intervenção de seu irmão, um ‘leigo’ coordenador da pastoral, a chave do quarto dos professores da escolinha ‘milagrosamente’ apareceu. A única vantagem do ambiente em relação ao anterior era a privacidade.
O senhor João, de quem compramos um refrigerante, convidou-nos para jantar na sua residência. Ofereceu-nos um jantar à base de peixes e nos informou que em Laranjal teríamos abrigo no Centro Cívico e que lá procurássemos o senhor Everaldo.

Coari: Entrevista com o Eng. Ambiental Revi sobre o tratamento de resíduos na cidade



06-10 jan: Laranjal - Coari




Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

Por Hiram Reis e Silva (Coari, AM - 08 de janeiro de 2009)

- Largada para Laranjal
Saímos às 06:05 do Lago Ipixúna sem guardar boas lembranças da comunidade que, apesar de se chamar ‘Divino Espírito Santo’, não prima muito pelo espírito cristão em termos de amparo aos que a ela acorrem procurando abrigo. Forçamos um pouco o ritmo e chegamos a Laranjal, por volta das 12:00 horas, após avistar uma enorme samaúma às margens do Solimões. Laranjal tem seu nome ligado a uma grande plantação de laranjeiras que já não existe no local.
Cheguei procurando, como de praxe, pelo administrador rural, o senhor Everaldo, conforme nos informara seu João, do lago Ipixúna. O senhor Idelfonso nos recebeu e informou que o líder da comunidade não se encontrava no local, mas que o vice faria contato conosco. Senti uma certa desconfiança nos olhos do velho homem que nos incentivava a prosseguir sem parar até Coari. A resistência de seu Idelfonso tinha uma razão de ser: anos antes eles haviam se envolvido com traficantes que se abrigavam na comunidade, fazendo com que a polícia de Coari fichasse diversos de seus membros por envolvimento deliberado com os meliantes.
Informei de que nossa intenção era pernoitar na comunidade e, depois de muita conversa, fomos acomodados no Centro Comunitário. Armei a barraca e arrumei as coisas, tomei um banho e depois fomos almoçar na casa do Idelfonso, a seu convite, o qual, já nos conhecendo melhor, tornou-se bastante amistoso. O contato com o decano e com sua família foi bastante agradável.

- A vingança da Samaúma
A primeira visão que se tem da comunidade, quando se desce o rio, é de uma exuberante samaúma com suas enormes sapopemas que lembram os véus de uma deusa da floresta. Existiam três na região; a maior delas foi criminosamente abatida para ser vendida e transformada em compensado. Uma árvore magnífica como esta deveria ser tombada como patrimônio e, nunca, utilizada para comercialização.
O senhor Idelfonso construiu um barco à sombra de uma imponente samaúma próxima a sua casa. O barco ficou pronto e permaneceu no local da construção. Em uma determinada noite a vingança ocorreu. A samaúma despencou um de seus mais frondosos galhos, esmigalhando o barco e vingando a irmã derrubada pela comunidade.

- O Jacaré Crocodiliano
Idelfonso contou que todas as noites um enorme jacaré, de seus mais ou menos sete metros de comprimento, cruza o Solimões rumo a Coari. A história foi confirmada pelos demais membros da comunidade e em Coari ouvimos diversos relatos a respeito de animais do mesmo porte. O Major Denildo, da Polícia Militar de Coari, nosso amigo e guardião, relatou ter visto com os próprios olhos, na casa de um ribeirinho às margens do Nhamundá, um couro de jacaré destas proporções.

- Largada para Coari
A noite foi de temperatura bastante agradável e teria sido perfeita não fosse o fato de um bezerro apartado da mãe ficar mugindo a noite inteira. Acordamos ao alvorecer, nos despedimos da família amiga que tão gentilmente nos acolhera e partimos. Paramos no Terminal Solimões, da Petrobras, próximo a Coari, e fomos tratados com total indiferença pelo técnico responsável, depois aguardá-lo por quase 30 minutos. Fomos orientados a procurar, logo ao lado do terminal, o representante da Consag, prestadora de serviços encarregada da construção do gasoduto. O técnico responsável mandou um recado para que procurássemos o pessoal da Consag em Coari que, igualmente e após inúmeras tentativas, não se dignou em nos atender.
Nossa intenção era a de mostrar o trabalho ambiental e social que vem sendo desenvolvido ao longo das obras de implantação do gasoduto. Infelizmente, a Petrobras e suas terceirizadas parecem querer transformar o projeto numa enorme caixa preta, tamanha a gama de dificuldades que apresentam aos que tentam mostrar as alternativas adotadas pela empresa procurando proporcionar melhoria nas condições de vida da população atingida pelas obras.

- Major PM Denildo
A navegação até Coari foi rápida em virtude da forte correnteza. Deixamos os caiaques no Flutuante da Consag, por volta das 12:30 horas, seguindo a orientação de um de seus funcionários. Telefonei, imediatamente, para o 190, solicitando o apoio de nossos fiéis amigos da Polícia Militar do Estado do Amazonas. Não demorou cinco minutos e o Major Denildo estava no cais. Tomamos banho na residência do Major que, depois, nos levou até restaurante Piracuí para almoçarmos. Após o almoço, percorremos a cidade na viatura da PM e conhecemos seus principais pontos turísticos e o complexo de obras executados pela prefeitura de Coari na gestão do prefeito Adail Pinheiro. O Major conseguiu junto à senhora Eliana, coordenadora da UAB (Universidade Aberta do Brasil), que ficássemos hospedados na Universidade. A coordenadora e cada um dos membros da UAB nos receberam de braços abertos e nos franquearam o acesso aos computadores e internet.

- Coari
O Major Denildo tem sido incansável. O café da manhã regional, de 07 de janeiro, foi degustado na Greici e o Major colocou o Cabo Pereira à nossa disposição para reconhecer a cidade, realizar entrevistas e assistir a posse do secretariado do novo prefeito. No dia 08, tomamos café na Greici, passeamos pela cidade em companhia do Major Denildo e concedemos uma entrevista na Rádio Nova Coari FM. A Maria Helena chegou por volta das 10:30 e o Denildo ampliou nosso passeio turístico até o lago Mamiá.



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06-10 jan: Laranjal - Coari

05 jan: Lago Ipixúna - Laranjal

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05 jan: Lago Ipixúna - Laranjal

Rios de águas azuis, pretas e brancas

Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)
Hiram Reis e Silva (*)

- Rios de águas azuis
Os escudos brasileiro, ao sul, e das guianas, ao norte, são formados por rochas do período pré-cambriano, e os rios que têm suas nascentes nessas áreas são rios de águas claras e, em conseqüência, pobres em nutrientes.

- Rios de águas pretas
Os rios que nascem em áreas de sedimentos terciários são da cor do chá preto e muito pobres. No talvegue apresentam a cor mais escura, sendo conhecidos como rios de águas pretas.

- Rios de águas brancas
Por sua vez, os rios que nascem na cordilheira dos Andes são conhecidos como rios de água branca, em decorrência das cargas de sedimentos que trazem das montanhas.

- Controverso Japurá
O rio Japurá é um rio de águas brancas que começa a ser corrompido pelas águas do rio Auti-Paraná, na altura da cidade de Maraã, que carrega até ele as águas do Solimões. Mais adiante, ele recebe uma nova carga de água do Solimões no seu leito, através do paraná Aranapu. A tonalidade da água do Japurá provoca nos incautos uma confusão na sua classificação. É necessário que se observe, portanto, o rio à montante de Maraã para classificá-lo corretamente. Outros rios na Amazônia apresentam dificuldades na sua classificação, sendo necessário conhecê-los em toda a sua extensão para não incorrer em erro.

- Planícies alagadas
A cordilheira dos Andes é responsável pela maior descontinuidade climática da América do Sul. Desertos de um lado e vegetação luxuriante de outro. A grande responsável pela manutenção dessa vegetação são as chuvas. Grande parte delas é formada no Oceano Atlântico e empurrada pelos ventos alíseos.

- Mamirauá
As chuvas não são distribuídas uniformemente durante o ano. No Mamirauá, a época das chuvas mais intensas é de dezembro a março e o período da seca de julho a outubro. Esta variação no regime de chuvas provoca uma variação de até 12 metros no nível das águas, fazendo com que toda a área da reserva fique submersa, exigindo uma enorme capacidade de adaptação por parte da flora e da fauna local.

- Lagos
São mais de 600 lagos já identificados, que servem de importante fonte de subsistência para as comunidades da reserva. O mais importante deles é o Mamirauá, que foi, certamente, um meandro abandonado pelo rio-menino que encontrou um novo caminho mais retilíneo. O rio Solimões está em constante mudança e, em menos de uma década, é capaz de formar ilhas com vegetação.
Como os sedimentos trazidos pelo rio se depositam continuamente nas restingas altas, elas podem, no futuro, transformar-se em florestas de terra firme. Cada hectare da reserva abriga ‘apenas’ uma centena de espécies diferentes de árvores, e isso demonstra que as áreas de várzea não são capazes de sustentar os altos níveis de biodiversidade das terras firmes, tendo em vista as adaptações que as espécies tiveram de desenvolver para sobreviver.

Entrevista com o Coordenador de Operações do Instituto Mamirauá

O álbum abaixo apresenta imagens produzidas no período de 31 de dezembro a 02 de janeiro do Flutuante Mamirauá à Tefé. Dê um clique na foto e aprecie!!!

02-31dez: Flutuante Mamirauá-Tefé



Desafiando o Rio-Mar: Mamirauá
Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)
Hiram Reis e Silva (*)
- Sonho transformado em realidade
Depois de mais de 300 palestras realizadas na região sul nos últimos nove anos, em Universidades, Estabelecimentos de Ensino Médio, Cursinhos Pré-vestibulares, Lojas Maçônicas, Associações Comerciais e Organizações Militares, nos quais apresentávamos a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) de Mamirauá como modelo de preservação ambiental, chegou, finalmente, a oportunidade de conhecê-la ‘in loco’.
Graças ao amigo Stiger, conhecemos, no INPA, a pesquisadora Vera Silva, considerada a maior especialista em mamíferos aquáticos amazônicos do mundo. A Vera, na oportunidade, acenou-nos com a possibilidade de que poderíamos conseguir autorização para visitar a reserva através do Instituto Mamirauá. Já havíamos descartado totalmente a hipótese de conhecer a RDS, pois havíamos feito contato através da Pousada Uacari e a diária era impraticável. Os administradores não se sensibilizaram com nosso projeto científico-cultural envolvendo alunos do ensino médio e fundamental.
Já estávamos descendo o Solimões quando a Vera solicitou maiores informações sobre o projeto para encaminhá-las ao Instituto. Seguindo sua orientação, minha querida amiga Rosângela, de Bagé, RS, enviou toda documentação solicitada ao Gerente Operacional do projeto, senhor Josivaldo Modesto, conhecido como César, que se empenhou pessoalmente para que a autorização fosse concedida.
O resultado de todo este processo foi de que desde que entramos na área da reserva fomos abrigados em seus flutuantes, sem qualquer ônus e tratados como pesquisadores que somos. O César, em particular, tem sido incansável em nos apoiar, permitindo nosso acesso a todas as informações que solicitamos.

- RDS – Pequeno histórico
Até a década de 80, o macaco branco de cara vermelha, conhecido como uacari, só havia sido descrito no século XIX pelo naturalista inglês Henry Walter Bates. Em março de 1983, um biólogo paraense chamado José Márcio Ayres parte de Tefé no navio Gaivota, financiado por seu pai, para pesquisar os uacaris. Depois de diversas tentativas frustradas, Ayres aportou o Gaivota na Boca do Mamirauá. Após anos estudando os curiosos primatas, seu estudo foi publicado em 1986 e, em 1990, mais de um milhão de hectares da várzea, incluindo a área onde havia desenvolvido seu estudo, foram declarados pelo governo estadual como Estação Ecológica Mamirauá. Em 1992, foi criada a sociedade civil Mamirauá, com o intuito de coordenar pesquisas e trabalhos de extensão na reserva e, em 1996, a ONG publicou seu plano de manejo, visando o uso sustentável dos recursos naturais e o policiamento dos recantos mais longínquos da reserva. Ato contínuo, o governo estadual consagra estes princípios, criando a Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá.

- A Várzea
Em decorrência das inundações periódicas, o rio Solimões, rico em nutrientes, proporciona o habitat ideal para a reprodução e berçário para mais das 300 espécies de peixes da reserva. Por outro lado, o crescimento desordenado dos grandes centros urbanos na Amazônia e a conseqüente busca por proteína barata, tornam a opção pela busca do pescado nos lagos e rios uma ameaça, tanto ao ecossistema de Mamirauá como de todos os outros.

- Pesquisa científica
O governo brasileiro, através do CNPq (Conselho Nacional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e de doadores internacionais, financia projetos como o de estudo ecológico do pirarucu, a rádio-telemetria dos botos e do jacaré-açú, dentre outros, tornando o Mamirauá um centro de excelência para estudos relativos à floresta alagada.

- Extensão
Junto à população ribeirinha são desenvolvidos projetos de saúde, educação ambiental e técnicas agrícolas, com a experimentação de novas técnicas produtivas de árvores frutíferas, planos de manejo madeireiro sustentável e artesanato tradicional envolvendo cerâmica e cestaria, além da operação de uma rádio comunitária.

- Conclusão
Reputamos a RDS Mamirauá como modelo, tendo em vista o envolvimento democrático da população ribeirinha na absorção e aplicação de novas técnicas ambientais, no controle e fiscalização dos recursos naturais da reserva e a modelar ação norteadora do Instituto como organização científica de excelência, apresentando novas alternativas sustentáveis. A corrupção que verificamos em toda a nação, nos órgãos encarregados de fiscalizar os atos lesivos ao patrimônio genético e ambiental do país, mostra ser Mamirauá um modelo que deu certo e que está em constante reformulação e aperfeiçoamento. Nossos reiterados agradecimentos ao amigo César e a todos do Instituto pela cordialidade e carinho com que nos receberam.

Cel. Hiram entrevista pesquisadores do Instituto Mamirauá

Flutuante Mamirauá/Tefé

Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)
Hiram Reis e Silva (*)

- Mergulhando nas entranhas do Mamirauá
O Mamirauá é um poço de tranqüilidade, margens intocadas, a vegetação não é violentada pelas águas como a do Solimões. Passamos pela Pousada Uacari e chegamos ao flutuante onde fomos recebidos pelo senhor Ivo, que nos ofereceu um saboroso almoço/janta que havia sido preparado pelas pesquisadoras Juliane e Joana, as quais já teriam seguido destino a Tefé.

- Entusiastas Pesquisadoras
Fomos surpreendidos, ao entardecer, com o retorno da Juliane e da Joana e mantivemos um prazeroso contato com ambas. Juliane, veterinária gaúcha de Porto Alegre e pesquisadora de mamíferos aquáticos amazônicos (boto); Joana, carioca, da gema, trabalha com a ecologia de vertebrados terrestres, tendo como foco as ocas. Gravamos uma pequena entrevista com ambas contando suas histórias de vida e o objeto de sua pesquisa. Ambas demonstraram uma paixão pelo que fazem e a determinação com que enfrentam as vicissitudes do ambiente por vezes hostil.

- Primeira Manhã em Mamirauá (28 dez 2008)
Acordei cedo para tirar umas fotos do nascer do sol em Mamirauá. O alvorecer é fantástico, quase tão lindo como o do lago Guaíba, em Porto Alegre. Despedimo-nos das amigas pesquisadoras e saí de caíque para reconhecer e fotografar a área. A vegetação da várzea é formidável, as espécies evoluíram e se adaptaram às condições especiais das inundações sazonais, sobrevivendo apenas as mais fortes, o que explica ser sua biodiversidade menor do que a da vegetação de terra firme. As raízes, em especial, chamam a atenção dos mais sensíveis, parecem ter sido formadas por mãos celestiais.
Conhecemos, no Flutuante ‘Boto Vermelho’ do INPA, a pesquisadora carioca Sani, que trabalha sob a supervisão da nossa querida amiga Vera Silva, considerada referência mundial como pesquisadora de mamíferos aquáticos do planeta. Alegre, de bem com a vida, a Sani está perfeitamente integrada à região e ao seu trabalho. À tarde, ela veio nos visitar no Flutuante e saiu para passear com o caíaque duplo só voltando ao entardecer.

- Senhor Joaquim Martins (29 dez 2008)
O líder e patriarca da Comunidade da Boca do Mamirauá, senhor Joaquim, como havia prometido, veio nos visitar na manhã de segunda-feira, acompanhado do ‘Lula’, um de seus 38 netos. A chuva que começara à noite só parou por volta das 10h. O Senhor Joaquim ficou proseando e contando suas histórias. É impressionante o vigor físico, a lucidez deste ribeirinho que é um dos esteios da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Quando a chuva diminuiu, acompanhei-o na pescaria e sua destreza em arpoar e depois na técnica usada para pescar o tambaqui usando o ‘enganador’ e a ‘arati’ como iscas, justificam a fama de grande pescador que tem. Retornamos ao Flutuante e ele nos presenteou com o tambaqui que foi assado pelo zelador Ivo e saboreado no almoço.

- Peixes ornamentais
À tarde, chegou com sua equipe, o Jonas, especialista no manejo de peixes ornamentais. Participamos da captura de acarás à noite, numa preparação para a palestra que o Jonas iria ministrar na pousada e que seria concluída no laboratório do nosso Flutuante. À noite estava perfeita, embora sem lua, limpa e estrelada, prenunciando um bom tempo que não veio. No deslocamento da ‘voadeira’, diversas sardinhas, atraídas pela lanterna que o Jonas portava na testa, caíram dentro da nossa embarcação. No retorno, algumas delas serviram de repasto para o grande poraquê que habita um enorme aquário do laboratório.

- Efeitos da Chuva
Na madrugada de 30 de dezembro choveu torrencialmente, o que impediu novas capturas, e o dia raiou com uma precipitação bastante forte. Ajudamos o Ivo a desprender o capim memeca, que descia o rio em grandes ilhas, do flutuante e aproveitamos para ler um pouco e atualizar nossas anotações. O Romeu envolveu-se nas atividades culinárias. O Jonas realizou a palestra na Pousada e depois os turistas vieram até o laboratório do Flutuante. No laboratório, ele relatou que das mais de 300 espécies de peixes levantadas na reserva, menos de 20 são consideradas ornamentais e que destas apenas 3 fazem parte do projeto de manejo, que são o Acará-Bandeira, o Acaraçú e o Acara-Boari (mesonauta). Na oportunidade, um fotógrafo italiano chamado Valter insistiu que remássemos juntos para nos fotografar.
À tarde, fomos percorrer algumas trilhas ao longo dos canos do Mamirauá. As aves estavam exaltadas com a pesca fácil. A chuva aumenta a correnteza do Mamirauá e demais cursos, movimentando o lodo do fundo e liberando grande quantidade de gases. Toda a reserva recende a enxofre e os peixes são obrigados a subir à superfície em busca de oxigênio, tornando-se presa fácil dos predadores. O espetáculo proporcionado pelas garças, principalmente, é inenarrável. Achei a trilha, indicada pelo Jonas, fotografei as vitórias amazônicas, guaribas e outras raízes exóticas e retornei à base.
O Romeu tentava ensinar o Valter, nosso amigo italiano hospedado na Pousada Uacari, como remar. À noite, preparamos nossos apetrechos para seguir destino a Tefé na manhã de 31.

- Largada para Tefé
Um dos muitos genros de seu Joaquim foi designado para nos deslocar até a Boca do Mamirauá. Seu Joaquim e filhas nos agradavam com a alegria típica dos ribeirinhos. Aproveitamos para comprar alguns artesanatos fabricados pela comunidade e tiramos uma foto diante da Castanha Sapucaia mais famosa do mundo. Sua foto, na época da cheia, com uma pequena embarcação ao lado, ilustra diversas revistas e livros no mundo tudo. Já no lago Tefé, segui as orientações da pesquisadora Juliane e não tivemos problemas em localizar o flutuante do Instituto. O César, mais uma vez, com a atenção e cordialidade que lhe são peculiares, nos acolheu no porto, levou-nos até o clube militar de Tefé onde nos hospedamos, e nos levou após o banho para almoçar.