Treinamento para a navegação no Rio Negro/Travessia da Lagoa dos Patos: 25/11 a 30/11 de 2009

Treinamento para a navegação no Rio Negro/Travessia da Lagoa dos Patos: 25/11 a 30/11 de 2009

Praia da Pedreira: Ponto de partida para a travessia da Lagoa dos Patos

A Praia da Pedreira, ponto de partida dessa fase de treinamento para a descida do Rio Negro na Amazônia, é uma das praias do Parque Estadual de Itapuã no Rio Grande do Sul. Localizado a 57 km da capital, o Parque de Itapuã protege a última amostra dos ecossistemas originais da Região Metropolitana de Porto Alegre com campos, matas, dunas, lagoas, praias e morros às margens do lago Guaíba e da laguna dos Patos. Nas suas formações vegetais, ocorrem mais de 300 espécies, destacando-se a figueira, a corticeira-do-banhado, o jerivá, o butiazeiro, além de orquídeas, cactos e bromélias. A Lagoa Negra, com 1750 hectares, é o ponto de parada de aves migratórias, como o trinta-réis e batuíras.

"O Parque Estadual de Itapuã foi criado em 1973 e fechado 18 anos depois, sendo reaberto apenas em abril de 2002. A área de 5,5 mil hectares, onde está localizado o parque foi palco de combates durante a Revolução Farroupilha. Na tentativa de impedir a passagem de navios imperiais vindos do Rio de Janeiro, os farrapos construíram fortes nos morros chamados de Itapuã e de Fortaleza. Em 1836, 32 soldados farrapos morreram no Morro da Fortaleza, vítimas de um ataque imperial. Duas embarcações farroupilhas também estão afundas perto da Praia das Pombas."
Texto publicado em Zero Hora 29/04/2003





Parque Estadual de Itapuã

Rio Negro/Treinamento:Travessia da Lagoa dos Patos, "Canoagem Radical"



Por Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 20 de Novembro de 2009.


- Treinamento para Travessia da ‘Lagoa dos Patos’
Continuamos com os treinamentos para a Descida do Rio Negro. O ‘encerramento’ desta vez será a ‘Travessia da Lagoa dos Patos’, com saída na ‘Praia da Pedreira’, madrugada de 25 de Novembro, Parque Itapoã, e chegada, prevista, em Rio Grande no dia 1° de Dezembro. Ontem, a previsão de mau tempo me forçou a navegar costeando a margem esquerda do Guaíba até a frente Sul da ‘Ponta Grossa’. Os fortes ventos de popa na ida e, por incrível que pareça, na volta favoreceram bastante o deslocamento. Acostumado a remar longe das águas de Ipanema e da Vila dos Sargentos, havia esquecido da poluição que infesta aquelas áreas. Às vezes tenho de concordar com os ‘Talibãs Verdes’ de que o homem está se tornando um vírus letal para a Mãe Terra. Hoje, dia da Bandeira, resolvi, contrariando o bom senso, atravessar o Guaíba rumo ao Parque Fazenda Itaponã, meu idílico refúgio. É verdade que o tempo estava perfeito não fosse um pouco de neblina na linha do horizonte. Visitei meu velho amigo, Sr. Américo, e fui passear pelo campo admirando a floração das palmas. Os insetos polinizadores disputavam freneticamente cada flor.

- Abençoados ‘Teiús’
Ao retornar ao cais, onde havia deixado o caiaque, fui surpreendido com a visão de um enorme ‘teiú’ que ziguezagueava pelo campo procurando ovos de quelônios.

Teiú (Tupinambis merianae): cabeça comprida e mandíbula e maxilar fortes, repletos de pequenos dentes pontiagudos. A língua é cor-de-rosa comprida e bífida. A cauda é longa e arredondada. O dorso apresenta barras negras transversais que se alternam com faixas transversais mais claras, com pontos negros e cinzas. A região ventral é clara, com barras negras transversais irregulares. Maior lagarto do continente, atingindo até um metro e vinte centímetros de comprimento. A cauda chega a medir 60 centímetros. Alimentação: variada, incluindo moluscos e artrópodes, vegetais, frutas, ovos, roedores, aves e anfíbios. Fonte parcial: Guia Ilustrado de Animais do Cerrado de Minas Gerais. CEMIG. Editare Editora - 2003.

A língua cor-de-rosa se movimentava sofregamente tentando localizar sua presa. De repente o réptil estancou e, depois de alguns giros sobre o mesmo lugar, iniciou a escavação. O primeiro ovo apareceu logo em seguida e foi de pronto devorado. Quando estava para devorar o quinto ovo, apareceu, não sei de onde, um lagarto bem maior que o primeiro. Alguns giros e demonstrações de hostilidade fizeram o primeiro abandonar o tesouro recém-descoberto. Não sei se por estar saciado ou acovardado perante tamanho adversário. O segundo lagarto continuou a escavação e só se retirou após devorar os oito ovos restantes.

- A Tormenta
O leitor deve estar se perguntando onde está o ‘Radical’ de tudo isso. Às 12h20min iniciei minha viagem de retorno, rumo Nordeste. Após remar vinte minutos alguma coisa ou alguém me fez olhar para o Sul. Um enorme, belo, sinistro e arroxeado cogumelo de tempestade, com belas franjas verticais de brancas nuvens, limitado a Este pelo Farol de Itapoã e a perder de vista a Oeste, surgiu do nada. Resolvi picar a voga achando que seria possível chegar antes dele ao meu destino - a Raia 1, na Pedra Redonda. Pouco depois me virei novamente e o limite Este já era a Ilha do Chico Manoel, a tempestade percorrera 30 quilômetros em menos de vinte minutos. Resolvi aportar na margem direita até que a tempestade passasse, afinal estava a apenas 400 metros de distância e levaria uns cinco minutos para chegar até lá. Quando alterei o rumo, uma visão cinematográfica: a superfície da água, varrida pelos fortes ventos, formava uma cortina branca de uns dez metros de altura e célere se aproximava. A forte rajada quase me arranca o remo das mãos. Tentei alinhar a proa com o vento usando o leme e remando vigorosamente sem conseguir sucesso. Os ventos de 110 Km/h tentavam assumir o comando de meu caiaque, mas, depois de quinze minutos de muito esforço, consegui acostar e navegar por entre os juncos, próximo à margem, refugiado, até achar uma pequena casa de pescador na Ponta da Figueira. O dono da casa, o Sr. Inácio, e seu amigo, o Sr. Áureo, gentilmente me convidaram para entrar e ficamos contando estórias de pescador até o tempo melhorar um pouco. Às duas da tarde, cessada a ventania, me despedi dos novos amigos.

- O inigualável ‘Cabo Horn’
No Rio Purus, o caiaque duplo, pilotado pelo meu parceiro, estava sendo rebocado por uma embarcação a motor e sofreu sérias avarias. Eu já havia testado o caiaque no Guaíba em circunstâncias similares e o mesmo havia saído incólume do teste. Naquela oportunidade, bastante contrariado, com a possibilidade de nenhum de meus companheiros de viagem conseguir concluir a totalidade do percurso, escrevi um artigo me referindo ao caíque como ‘Frágil’. Hoje, conhecendo todos os fatos, quero me penitenciar junto ao amigo Fábio Paiva, da Opium, fabricante dessa formidável embarcação.Meu parceiro confessou, em Porto Alegre, enquanto aguardávamos uma entrevista com o jornalista Milton Cardoso da Bandeirantes, que, por diversas vezes, ‘esticava as pernas’ de pé dentro do caiaque, evidentemente forçando a estrutura justamente no ponto que mais tarde veio a cisalhar. Sentava no convés, nos locais de parada, carregava o caiaque antes de colocá-lo n’água e, nas aulas que se permitia dar aos filhos dos ribeirinhos, as crianças não tinham o devido cuidado com as embarcações. Como nas provas de equitação, o canoísta e caiaque formam um conjunto harmonioso e perfeito, desde que se respeitem as características de cada um. Já naveguei 15.500 km com o fantástico ‘Cabo Horn’ da Opium e posso dizer que não o trocaria por nenhum outro da sua categoria. A sua estabilidade enfrentando vento de 110 Km/h demonstram, sem sombra de dúvida, sua qualidade inigualável.





Lançamento do Rio-Mar 2ª Fase/Rio Negro









Rio Negro/Treinamento na Lagoa da Fortaleza: "Vendaval na Lagoa da Fortaleza"


Por Hiram Reis e Silva, Cidreira, RS, 13 de outubro de 2009.

O treinamento para a descida do Rio Negro é um eterno aprendizado e, desta vez, a protagonista foi a Lagoa da Fortaleza em Cidreira.

- El Niño
O aquecimento das águas do Oceano Pacífico acarreta mudanças significativas nas correntes atmosféricas provocando secas na região norte/nordeste e a ocorrência de intensas chuvas na região sul do país provocando, muitas vezes, catástrofes que assolam impiedosamente a região serrana de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Nas planuras lacustres ao longo do litoral gaúcho, porém, estas mesmas águas trouxeram muita beleza e revitalizaram a região.

- Lagoa da Fortaleza
Na manhã de sábado (10 de outubro de 2009), ventos superiores a 10 nós (18 km/h) encrespavam a superfície da Lagoa da Fortaleza, com ondas de mais de meio metro de altura. O caiaque oceânico mais parecia um potro redomão corcoveando sobre as águas. As ondas revoltas lavavam o convés e tornavam a navegação bem mais emocionante, embora mais lenta. Rumei direto para uma pequena represa construída no canal que une a Lagoa à sua vizinha do norte (Lagoa Manuel Nunes). As águas tinham inundado os campos mais baixos e, quando me aproximei do dique, constatei que a diferença do nível das águas de montante e jusante, que há três meses, era de um metro e oitenta era, agora, de apenas de 25 centímetros. O barranco que dificultava o acesso ao canal simplesmente desaparecera, suas águas estavam niveladas com o campo. A quantidade de aves era impressionante: bandos de marrecas da patagônia (não avistei nenhum macho no bando), marrecas piadeiras (Dendrocygna viduata), caneleiras (Dendrocygna bicolor) e pés vermelho (Amazonetta brasiliensis) que levantaram vôo logo que me avistaram. Apenas um fleumático casal de Tarrãs me observava curioso do alto de um morrote sem esboçar qualquer reação. Pouco antes de me aproximar da represa, um movimento intenso das águas mostrava que os peixes tinham, graças às cheias, conseguido alcançar, finalmente, a Lago da Fortaleza revitalizando-a. A represa, antes da cheia, era uma barreira intransponível para os peixes que migravam desde a barra do rio Tramandaí e conseguiam chegar à Lagoa da Fortaleza depois de passar por quatro lagoas atravessando os seus canais.

Tarrãs (Chauna Torquata): ave da família dos anhimídeos, natural da Argentina, Bolívia e região Sul do Brasil. Medem cerca de 80 cm de comprimento de altura, com uma envergadura de 120 cm e 4,5 Kg de peso. As pernas são vermelha e as plumagens pardo-acinzentadas, pescoço com gola negra e estreito círculo branco. As asas são negras e com uma grande área branca visível durante o vôo. Conhecidas, também, pelos nomes de anhuma-do-pantanal, anhumapoca, anhupoca, chajá, inhumapoca, taã, tachã-do-sul, tajã, xaiá e xajá.

Tirei algumas fotos da represa e cercanias e naveguei para a foz de jusante do canal onde estacionei. A imagem da Lagoa Manuel Nunes era bastante diferente da que eu encontrara meses atrás. Na época, a foz, totalmente assoreada, permitia que se atravessasse o canal a pé com água pelo tornozelo e, hoje, tive de nadar para alcançar a margem. Uma grande cobra d’água lutava contra a correnteza forte do canal tentando alcançar a margem e uma pequena tartaruga e um grande cágado lagarteavam num local protegido dos ventos aproveitando o calor amigo dos raios solares. Encontrei um estranho crânio que resolvi levar para que os professores de biologia do Colégio Militar de Porto Alegre identificassem. A natureza irradiava uma harmonia contagiante.

- Vendaval na Lagoa
Na manhã de domingo (11 de outubro de 2009), ventos superiores a 25 nós (45 km/h), encastelavam as águas da Lagoa da Fortaleza, com ondas de mais de um metro de altura. Remei durante algum tempo, mas apesar de manter o remo abaixo da linha dos ombros, procurando evitar a ação dos ventos nas pás do remo, o esforço exigido era muito grande e resolvi realizar, apenas, pequenos percursos próximo à largada. Eu já enfrentara um vendaval semelhante no Guaíba ao retornar do Parque Itaponã. A distância de dez quilômetros que eu vencia com 01h25m em média, sem apresentar qualquer sinal de cansaço precisou de 02h55min para ser vencida e, ao final, eu me encontrava totalmente exausto.

Rio Negro/Treinamento no Guaíba: "O Guaíba e o Parque Itaponã"



Por Cel Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 29 de agosto de 2009.

- Parque Fazenda Itaponã
Localizado no Município de Guaíba, há apenas 35 km de Porto Alegre, o parque proporciona a oportunidade de conviver com a natureza em uma área de 35 hectares. Possui um grande bosque de eucaliptos e uma vegetação exuberante composta por coqueiros, eucaliptos, cactos, figueiras, bromélias e mato nativo. As opções de lazer são variadas: restaurante panorâmico, churrasqueiras, praia, trilhas ecológicas, pescaria, passeios a cavalo, quadras de futebol e vôlei, passeios de dindinho, carroça. O privilegiado ponto de parada de minhas incansáveis remadas é de propriedade do amigo Marcelo Fichtner e é administrado pelo seu fiel escudeiro Juarez Boneberg.

- A lenda do Itaponã
Karia'y Guatá (homem jovem e valente andarilho)
Havia, nos Pampas Gaúchos, lá pelos primórdios das civilizações nômades Guatá, tribos indígenas da ramificação dos pré-Canganges. Eram povos que vagavam pelos campos do sul, por volta dos séculos XVII a XIX, percorrendo caminhos de percursos constantes (Guatahá) sobre os Yvyaty (morros), que compõem o perfil da linha do horizonte que vemos ao observarmos do sul até o sudoeste do Parque. Esses morros são conhecidos, desde aquela época, como Morros da Guarita, por serem os pontos mais altos da região. Um Karia'y guerreiro indígena, sempre quando passava pelo Morro da Guarita, parava e fitava ao longe, em direção nordeste, onde o céu se debruça sobre a terra e deixa uma semente como marca de seu amor. Eram pontos claros e escuros, ao longe, que não conseguia definir claramente por entre a Yvyatãty (neblina). Isto acontecia sempre à época em que a tribo cruzava pelo local. Era em tempos de frio, quando vinha do sul em busca de campos mais quentes. Uma certa vez, quando sobrava o gelado vento Minuano, vindo das Cordilheiras, conseguiu ver aqueles pontos claros, quase brancos (Puí). Eram pedras (Itá), com certas manchas pretas (Hú) por entre elas, que mais pareciam silhuetas femininas. Por sua Angerú (ânsia, desejo), aguçada curiosidade e descontrole de sua tribo, conseguiu descer em busca daquele pedaço do "céu na terra". E se foi! Quanto mais se aproximava, mais seu coração batia, pois, independentemente da aventura ao desconhecido, as imagens com contornos suaves lhe secavam a saliva da boca. Espreitando por entre Yvyra'í (arbustos) de camboins e aspargos, foi se aproximando. Foi quando percebeu que aquela ligação entre o céu e a terra era uma ponta (ponã) de pedras que se pronunciava às águas - Itaponã. Mas, e as silhuetas com formas e sensações suaves que até lhe pareciam movimentar-se ao ritmo das brumas, onde estavam? Sentou-se às pedras tentando decifrar as imagens que não lhe saíam da mente. Uma brisa começou a balançar os Amarilios (Sarandis) com formas rítmicas que pareciam dançar ao som do suave vento. Seus sonhos se diluíram como as brumas ao luar ao perceber a realidade. Então se curvou, foi se acostando às pedras como quem vai esperar. Talvez...Itá Tenimbé! (das pedras fez seu leito!). Ficou muito solitário e de lá nunca mais saiu, pois as imagens que em seus sonhos pairavam eram tão fortes que não conseguia perdê-las em sua mente. Eram muito vivas. Eram de sua Kuñá. Hoje, nas noites de tempestades, ouve-se Jahe'osoró - os lamentos do jovem guerreiro como Yvypora (habitante fantasma da Terra) na espera de sua Kuñá (mulher). Nas noites de lua cheia e águas límpidas ele aparece em forma de Piraitá (peixe-pedra, Cascudo) a deslizar sobre a ponta das pedras. Se olharmos do Morro da Guarita para o Itaponã, nas noites de lua nova, vamos vê-lo descendo do céu para as pedras para sua Jeheká (rebusca da vida) Kuñá! Em certos documentos investigados, há referências a um pequeno grupo que se dirigiu para uma elevação próxima à área, ali se instalaram à espera de que um dia o jovem guerreiro retornasse. Faziam Jahe'opapá (composições poéticas consagradas ao luto) em sua homenagem. Até hoje ainda é encontrado Itaguypé (fragamentos de vasilhas de barro) no Monte Arqueológico, provavelmente do grupo de Karia'y Guatá. Ao percorrermos esse Monte durante o dia, sentimos fluidos de energias com sensação de paz e de equilíbrio. E na noite? (http://www.itapona.com.br/)

- O Maguari
Garça Maguari (Ardea cocoi): é a maior das garças brasileiras podendo atingir um metro e oitenta centímetros de envergadura. Fora do período reprodutivo, vive solitária e, mesmo nessa época, a maioria mantém-se isolada durante a alimentação. O vôo, em linha reta, com o pescoço e as pernas totalmente esticados, é ritmado com lentas batidas de asas. Pousa nas margens dos rios, lagoas e banhados, oculta pela vegetação, onde captura peixes e anfíbios. Nidifica na parte superior das árvores mais altas e os ovos são chocados e cuidados pelo casal. A plumagem apresenta um contraste do branco do pescoço com o dorso acinzentado e as laterais escuras do ventre. Possui uma listra negra da parte inferior do pescoço, bem como no alto da cabeça. Ao redor dos olhos possui uma coloração azulada e o bico é amarelo. (Pantanal - Guia de Aves - Reserva Particular do Patrimônio Natural - RPPN - Sesc)

“Durante o voo, o maguari e alguns outros pernaltas esticam o pescoço em linha reta. As grandes garças, ao contrário, inclinam o longo pescoço para trás numa belíssima curva, de maneira que a cabeça fica bem próxima das espáduas". (Theodore Roosevelt)

Tinha guardado na memória o texto de Roosevelt desde que li, pela primeira vez, seu livro ‘Nas selvas do Brasil’ em que ele descreve os passos da Expedição Científica Roosevelt-Rondon, em 1913. O objetivo da expedição, era navegar e mapear o rio da Dúvida, além de coletar exemplares de mamíferos e aves para enriquecer o acervo do Museu Americano de História Natural. Observador arguto, Roosevelt, fez a citação acima que até então eu tinha tido a oportunidade de confirmar ao avistar os maguaris que se afastavam lentamente quando me aproximava de caiaque. Semana passada, navegando pelo irmão Guaíba, fui surpreendido, quando o atravessava, na altura do canal, entre a ponta da figueira e a vila dos sargentos, com a visão de um enorme maguari voando com o pescoço encurvado como o fazem as demais garças. Acho que ao realizar longos percursos a ave usa o confortável recurso de dobrar o pescoço. O fato é que a afirmação de Roosevelt e a de revistas e sites especializados, que eu tomara como absolutamente verdadeira, fora desmentida numa bela manhã de agosto pelo magnífico e solitário pássaro.

Rio Negro/Treinamento no Guaíba: "O Guaíba e a Terceira Margem"



Por Cel Hiram Reis e Silva, 10 de Agosto de 2009

Irmão Guaíba, navegando por tuas águas, afasto-me do mundo real e mergulho na tua essência mística, deixo o limitado pragmatismo de lado e penetro na tua fluidez infinita. Meu nível de consciência se altera, afastando de mim o cotidiano insano e permito que tuas ondas me conduzam a uma nova realidade materializada pelas tuas cálidas ondas que me arrastam. Uma estranha solidão invade meu íntimo e a onírica experiência faz com que assumas uma nova forma de vida. De repente, se estabelece uma relação única entre nós e, tu e eu, somos um só. Sinto como se regredíssemos ao útero da mãe Terra, um morno e profundo silêncio nos envolve e ao longe avistamos, por trás da bruma que se desfaz - a Terceira Margem.

- Irmão Rio
Os gananciosos empresários e políticos que desconhecem teu encanto, tua serenidade e visam tão somente interesses econômicos estão preocupados em alterar tua classificação para te corromper e te agredir ainda mais através da especulação imobiliária. Somente aqueles que te trazem no coração, que te consideram uma obra do Grande Arquiteto do Universo - um santuário, somente aqueles que compreendem tua história e teu destino são capazes de vislumbrar as maquiavélicas intenções destes vendilhões que mercadejam vilmente procurando abalar as colunas do teu sagrado templo. Comento, com alguns diletos amigos, que não treino no Guaíba, mas que treino contigo, Guaíba. Com o passar do tempo, fui te conhecendo, amando e respeitando cada vez mais. Foste meu Mestre Amado nas horas difíceis em que eu tentava, com dificuldade, não naufragar na depressão e no desalento. (...) Nas tuas águas, afogo meus desesperares, meus desencantos, meus desamores. No aconchegante embalo de tuas ondas, encontrei forças para perseverar e enfrentar minhas angústias e meu desânimo. Tua imensidão me abraça e conforta, tuas tranquilas águas me acalmam. Tua suave brisa insufla nos meus pulmões a mais bela e pura energia e me aproxima, cada vez mais, da Terceira Margem. Tuas águas revoltas mostram a rota da humildade que devo seguir e a névoa que te cobre nas manhãs de inverno trazem sinais de esperança nos horizontes que aos poucos se revelam. Sinto tua falta como do ar que penetra em meus pulmões e oxigena meu sangue. Nas inúmeras rotas em que me acompanhaste, foste um fiel e silente parceiro. A afinidade que nos irmana dispensa palavras, não precisa, absolutamente, delas. Aprendi contigo a interpretar os sinais da natureza, a me deixar levar pelos ventos e pelas ondas, a mergulhar na tua memória ancestral e dela recolher fragmentos da sabedoria dos tempos. Tuas belas ilhas e praias estarão sempre registradas na minha retina, os momentos de puro êxtase que, juntos, experimentamos permanecerão gravados eternamente na minha memória. Só aqueles que trazem na alma o amor pela natureza talvez entendam o sentimento que me invade, quando navego pelas tuas águas infindas. Sejam capazes de entender a estranha energia que me invade e revigora e a sensação mágica que toma conta de minha alma como se eu estivesse entrando, sozinho, em um recinto misterioso e sagrado. Que Deus não permita que os vendilhões triunfem.

- Rio Negro
O treinamento para o Rio Negro continua e depois dele outros virão. Os obstáculos, me ensinaste, existem apenas para aumentar nossa determinação e vontade de prosseguir. Parar, um dia sim, talvez, mas só quando meus braços não conseguirem empunhar o remo e manter a voga. O Negro tem a magia das suas águas pretas, das suas praias de brancura imaculada e natureza exuberante, mas nenhum outro se igualará, jamais, a você meu Amigo e Irmão Guaíba.

Rio Negro/Treinamento na Lagoa da Fortaleza: "Ode à Maguari - Réquiem à Lagoa da Fortaleza"


Por Hiram Reis e Silva, Cidreira, RS, 03 de Julho de 2009


- Treinamento para o Rio Negro
Nem mesmo os rigores do inverno devem impedir ou prejudicar o treinamento para meu novo desafio, a Descida do Rio Negro (1.100 Km) em Dezembro, de Cucuí a Manaus, de caiaque. Minhas raias tem se alternado, regularmente, entre as águas do Rio Guaíba e das Lagoas litorâneas. A terça-feira (28 de julho) amanheceu ensolarada, esperei até as 11h00 para que a temperatura se tornasse mais amena antes de iniciar a navegação na Lagoa da Fortaleza, em Cidreira. Seria apenas um treinamento curto tendo em vista que as previsões meteorológicas previam tempo ruim na parte da tarde. A velocidade do vento oscilava entre 2 e 3 nós e as ondas entre 20 e 40 centímetros, tudo indicava que seria mais um habitual dia de treinamento. A lagoa e as paisagens no seu entorno eram minhas velhas conhecidas e, em consequência, o percurso não prometia grandes novidades.

- Ode à Maguari
Eu havia decidido iniciar minha rota contornando o perímetro da Lagoa remando há uns 50 metros da margem rumo norte. Depois de remar por 15 minutos passou, a poucos metros sobre mim, uma enorme Garça Real, também conhecida como Garça Moura ou ‘Maguari’. Diferente dos demais pássaros que se afastam repentinamente, quando se aproximavam do caiaque, ela não alterou seu curso e foi pousar tranquilamente dentro d’água próxima à margem de onde ficou me observando.

Garça Maguari (Ardea cocoi): é a maior das garças brasileiras podendo atingir 1,80 de envergadura. Fora do período reprodutivo vive solitária, e mesmo nessa época, a maioria mantém-se isolada durante a alimentação. O vôo, em linha reta, com o pescoço e as pernas totalmente esticados, é ritmado com lentas batidas de asas. Pousa nas margens dos rios, lagoas e banhados, oculta pela vegetação, onde captura peixes e anfíbios. Nidifica na parte superior das árvores mais altas e os ovos são chocados e cuidados pelo casal. A plumagem apresenta um contraste do branco do pescoço com o dorso acinzentado e as laterais escuras do ventre. Possui uma listra negra da parte inferior do pescoço, bem como no alto da cabeça. Ao redor dos olhos possui uma coloração azulada e o bico é amarelo. (Pantanal - Guia de Aves - Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sesc)

Continuei minha jornada e fui surpreendido novamente, quando a ‘Maguari’ passou desta vez pela proa do caiaque, virando sua cabeça, me observando-me, indo pousar logo adiante de onde permanecia me avaliando. A cena se repetiu diversas vezes e, em uma das oportunidades, ela pousou nas areias da praia de uma pequena enseada e de lá acompanhou, de modo a não me perder de vista, a passos largos, a minha movimentação. Quando aportei, depois de remar uma hora, ela se afastou desaparecendo ao longe por trás das dunas imaculadas. Fiz um tour pela área admirando a vegetação e identificando os vestígios de capivaras e ratões do banhado que ainda habitam a região protegidos, que são, pelos zelosos e conscientes fazendeiros locais. Não esperava mais rever minha estranha amiga, mas, alguns minutos depois de iniciar meu retorno, a ‘Maguari’ cruzou novamente pela proa do caiaque há uns 10 metros de distância de maneira que pude identificar até a cor de seus olhos. Ela continuou a me acompanhar até o sítio de onde iniciara seu périplo. O que era para ser mais um rotineiro dia de treinamento se transformou numa experiência mágica em que dois seres, tão distintos, tiveram seus destinos cruzados, ainda que momentaneamente, pelas mãos do Grande Arquiteto do Universo. Foi um dia muito especial. Guardarei com carinho a cor daqueles brilhantes olhos da amiga ‘Maguari’ me fitando.

- Réquiem à Lagoa da Fortaleza
Mas nem tudo foi perfeito. Verificando as águas rasas junto às margens não havia qualquer sinal de vida aquática. Nem mesmo os famosos pequenos peixes ‘barrigudinhos’ que infestam qualquer pequena lâmina d’água. Lembro de minha adolescência quando se capturavam, nas suas águas, lambaris, tainhas, peixes-rei e mesmo siris.Iniciei, há uns vinte anos, minhas navegações pela Lagoa de Cidreira (Fortaleza) e desde então observo, constrito, a vida a se esvair de suas águas. A CORSAN, há anos, represou as águas da Lagoa de Cidreira para captação de suas águas para o consumo humano. Os peixes que migravam desde o mar pelo rio Tramandaí e pelos canais que o unem a lagoa Custódia e outras três até a Lagoa da Fortaleza foram impedidos de fazê-lo. A diferença dos níveis das águas, que na estiagem pode atingir dois metros, no dique, impedem tainhas, peixes-reis, dentre outros, de alcançar as águas da Fortaleza. Não houve, na época da construção da represa, a preocupação de construir um acesso aos peixes para que isso não acontecesse. É interessante verificar que os ecologistas gaúchos que se preocupam e se mobilizam com desmandos tão distantes de suas plagas não se interessem pelas ações inconsequentes que são perpetradas debaixo de suas ventas.

Rio Negro /Treinamento no Guaíba: "O Minuano e o Rio-Mar"


Por Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 25 de Julho de 2009


- Vento minuano
Aqueles que não tem suas origens nos pampas definem o minuano como um vento frio de origem polar, de orientação sudoeste, que assola as terras gaúchas e a região sul de Santa Catarina após a passagem das frentes frias de outono e inverno. Para o guasca que brotou do ventre da Pampa, que traz nas veias o sangue heróico dos maragatos, que ainda ouve o eco dos clarins farroupilhas, que traz na memória a imagem de Sepé Tiarajú morrendo de lança em punho, o minuano é muito mais do que um vento. O minuano que canta e geme pelas coxilhas do gauchismo enaltece nossa nacionalidade, nossas tradições e nos faz recordar das grandezas do passado. Ao mesmo tempo que gela as campinas e avenidas aquece os corações gaúchos com as mais belas reminiscências.

- Treinamento com o Minuano
Continuamos treinando no Rio Guaíba e numa nova raia, alternativa dos feriados, da lagoa da Fortaleza (Cidreira) até a do Armazém (Tramandaí). Remar no inverno suportando as baixas temperaturas, o minuano, os densos nevoeiros é um desafio bastante grande. É necessário ter uma disciplina férrea e não se deixar esmorecer. Quando minha vontade titubeia, eu a reforço relembrando a tenacidade e a força de vontade de um ícone da nacionalidade brasileira que é Rondon. A sua tempera, sua determinação, me fazem esquecer os obstáculos e manter a rota.

Golfinhos da Amazônia

“Há mais pessoas que desistem, do que pessoas que fracassam!” (Henry Ford)

Por Hiram Reis e Silva – Manaus (30 de Janeiro de 2009)

- Introdução
Durante nossa viagem pelo Solimões, fizemos várias referências a esses seres fantásticos e carismáticos que são os golfinhos de rio: o boto e o tucuxi. Considerados os animais aquáticos mais inteligentes da Amazônia, despertaram a curiosidade e a imaginação das populações ribeirinhas desde que travaram seu primeiro contato com os humanos. Com a indicação e contatos feitos pela pesquisadora Vera F. da Silva, obtivemos a colaboração da equipe do IDSM e a oportunidade de, durante 10 dias, observar o trabalho de pesquisadores e desfrutar das belezas naturais da paradisíaca Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDS Mamirauá). A doutora Vera é especialista em mamíferos aquáticos amazônicos, bióloga, pesquisadora e chefe do laboratório de Mamíferos Aquáticos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), tem mais de 25 anos de experiência com golfinhos Amazônicos e coordena o Projeto Boto na RDS Mamirauá há 15 anos. Dia 29 de janeiro fomos até o INPA agradecer à amiga Vera sua colaboração e, na oportunidade, ela nos presenteou com um livro de sua autoria ‘Golfinhos da Amazônia’. Em agradecimento à querida amiga e em reconhecimento a estas criaturas fantásticas que tivemos a oportunidade de conhecer, escrevemos o presente artigo.

- Lenda do Boto (Altino Berthier Brasil)
“Conta a lenda que o boto encontrado nos rios da Amazônia, se transforma em um belo e elegante rapaz durante a noite, quando sai das águas à conquista das moças. Elas não resistem à sua beleza e simpatia e caem de amores por ele. O Boto também é considerado protetor das mulheres, pois quando ocorre algum naufrágio em uma embarcação em que o boto esteja por perto, ele salva a vida delas, empurrando-as para as margens dos rios. As mulheres são conquistadas pelo boto quando vão tomar banho ou mesmo nas festas realizadas nas cidades ribeirinhas. Os Botos vão aos bailes e dançam alegremente com elas, que logo se envolvem com seus galanteios e não desconfiam de nada. Apaixonam-se e engravidam deste rapaz. É por esta razão que ao Boto é atribuída a paternidade de todos os filhos de mães solteiras. Reza a lenda que o boto costuma perseguir as mulheres que viajam pelos rios e inúmeros igarapés; às vezes, tenta virar a canoa em que elas se encontram e suas investidas contra a embarcação se acentuam quando percebem que há mulheres menstruadas ou mesmo grávidas. Esse particular é curioso, e devemos observar que, em relação à mulher menstruada, há uma série de alusões e tabus, que realmente servem de vetor para certas atitudes e crenças populares. Algumas pessoas confessaram temer viajar nos pequenos ‘cascos’ ou ‘montarias’, quando nelas está uma mulher ‘incomodada’. O boto é o grande encantado dos rios, que se transformando num guapo rapaz, todo vestido de branco e portando um chapéu - para esconder o furo no alto da cabeça, por onde respira - percorre as vilas e povoados ribeirinhos, freqüenta as festas e seduz as moças, quase sempre as engravidando. Há, inclusive, estórias em que a moça é fecundada durante o sono... Para se livrarem da ‘influência’ do bicho, os caboclos vão buscar ajuda na magia, apelando para os curandeiros e pajés. O primeiro, com suas rezas e benzeduras exorciza a vítima, e o segundo ‘chupa’ o feto do ventre da infeliz. É esse Don Juan caboclo, o sedutor das matas, o pai de todos os filhos cuja paternidade é ‘desconhecida’, que deu origem a deliciosa expressão regionalista: ‘Foi o boto, sinhá!’”

- Boto Vermelho (Inia geoffrensis)
A maioria dos especialistas defende a tese de que os seus ancestrais penetraram na Bacia Amazônica pelo Pacífico nos tempos da Pangea. Hoje sua distribuição se verifica na maioria dos rios do norte da América do Sul, em uma área de 5 milhões de km².Os machos chegam a atingir 2,55 metros e pesar 185 quilos, enquanto as fêmeas 2,15 metros e 150 quilos. Diferente de seus parceiros marinhos, possui um corpo robusto; em contrapartida, por não possuir as vértebras cervicais fusionadas, é capaz de movimentar a cabeça em todas as direções, possuindo também uma flexibilidade muito grande que lhe permite manobrar, com facilidade, entre as raízes e galhos dos igapós. O nascimento, na Amazônia Brasileira, após um período de gestação de aproximadamente 11 meses, ocorre no período da vazante, agosto e setembro, quando há abundância de peixes. Os filhotes nascem sem dentes, com uma média de 90 cm e 13 quilos, e são amamentados durante mais de dois anos. O boto é um exímio nadador e sua velocidade de deslocamento normal é de 1,5 a 3,2 km/h chegando em alguns casos a atingir de 14 a 22 km/h. Por mais de uma vez fomos acompanhados por estes animais magníficos e medimos velocidades que variaram de 12 a 15 km/h. O boto é um animal predominantemente solitário, anda aos pares e mais raramente em grupos de mais de dois indivíduos.

- Tucuxi (Sotalia fluviatilis)
Com o nome vulgar herdado dos índios Mayanas (tucuchi-una), o tucuxi é uma miniatura do golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) com um comprimento médio de 1,46 cm e peso médio de 50 quilos. O tucuxi é endêmico da bacia Amazônica e sua distribuição é limitada, ao contrário dos botos, pelas corredeiras de alguns dos principais afluentes do Amazonas, como o Negro (cachoeira de São Gabriel), o Madeira (cachoeira Teotônio) e o Xingú (cachoeira de Belo Monte). O nascimento ocorre após um período de gestação de aproximadamente 10 meses, no período da vazante na Amazônia Central, entre outubro e novembro, e os filhotes nascem com uma média de 77 cm e 11 quilos.

- Associações
Embora não interajam de forma direta, os grupos se aproximam, em decorrência da busca por alimentos. Foram observados grupos de tucuxis repelindo botos e, também, um tucuxi adulto brincando com um filhote de boto. Muitas vezes, tucuxis e gaivotas se alimentam na mesma região, embora não haja competição entre eles, já que as gaivotas comem peixes bem menores.

- Rio-Mar e os golfinhos
Nossas experiências com os golfinhos na descida do Solimões foram marcantes. Eles sempre apareceram para nos encantar, sinalizar ou apontar o local mais adequado que deveríamos seguir. Apesar de termos nossa malhadeira (rede) ‘roubada’ por um boto nas proximidades do flutuante Cauaçú, guardaremos com carinho a visão destes mamíferos aquáticos que tantas lendas despertam no imaginário popular dos ribeirinhos da Amazônia.


A chegada em Manaus (26 de janeiro de 2009)

“Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. (Henry Ford)

Por Hiram Reis e Silva (Manaus, AM, 26 de janeiro de 2009)
- Véspera
A noite de domingo foi longa e insone. A um passo da conquista de um objetivo planejado e perseguido incansavelmente por dois anos, minha mente repassava, inconscientemente, como num filme, todas as alegrias e todos os obstáculos que tivemos que ultrapassar para chegar até aqui. A alegria de sentir o apoio e o envolvimento irrestrito de amigos e familiares, o incentivo por parte de cada um que tomando conhecimento de nosso desafio se tornou um aliado, um combatente de primeira linha. Foi uma verdadeira expedição que desceu o Solimões de carona nos nossos sonhos. Amigos de todos os rincões, amigos virtuais, amigos que comungam por uma causa maior: a da brasilidade e da soberania Amazônica. A cada um de vocês que de alguma maneira tornou possível a concretização de ‘nosso mais belo e arrojado ideal’, o nosso profundo agradecimento. Certamente vosso apoio encontrará eco nos labirintos das eras passadas, de ilustres heróis como Pedro Teixeira, Plácido de Castro, Cabralzinho, Euclides da Cunha e tantos outros que lutaram para ampliar nossas fronteiras tão comprometidas, nos dias de hoje, por ações de mal-informados dirigentes que tomam decisões que afetam todos cidadãos brasileiros.
- Largada para Manaus
Partimos por volta das 07:00 horas, pois não havia necessidade de sair mais cedo; a hora prevista para chegada no 2º Grupamento de Engenharia de Construção (2º Gpt E), em Manaus, era por volta das 14:00 horas. Remei lentamente, procurando curtir cada segundo, gravando cada imagem captada pela minha retina, cada som que percutia nos meus tímpanos. As palafitas, as pequenas ‘montarias’ manobradas com invulgar destreza pelos ribeirinhos, as terras caídas, as ilhas que andam, os pássaros... tudo tinha um nostálgico sabor de despedida.
- Furo Paracaúba
O ‘furo’ ou ‘paraná Paracaúba’ que liga o Solimões ao Rio Negro permite que se acesse o rio mais à montante de sua foz, economizando tempo e energia. O ‘Paracaúba’ não é nem sombra do que era nos idos de 1940 a 1950, período em que os navegantes, cautelosamente, escolhiam o melhor momento para abordá-lo contornando seus perigosos rebojos. Fizemos uma longa parada na margem do Rio Negro, aguardando o tempo melhorar. O conserto do caiaque pilotado pelo Romeu, em Manacapuru, foi muito mal feito e eu temia que algum esforço maior pudesse comprometer sua estrutura. A tempestade sobre a cidade de Manaus gerava fortes ondas e o horizonte, à leste, prenunciava tempo bom; resolvi aguardar até que o rio ficasse mais calmo.
- Último lance
O rio se transformou em um lago. Fizemos mais uma parada, pois eu procurava ajustar a chegada para a hora marcada, 14:00 horas. Iniciando a travessia do rio, busquei me aproximar da margem esquerda para me afastar do canal; a correnteza do Negro era fraca, tendo em vista a cheia do Solimões, mas existia. Diminuí o ritmo, tendo consciência de que chegaríamos, com isso, depois da hora marcada.
Parei numa rampa próxima à Ponte do Rio Negro aguardando o Romeu, que apresentava visíveis sinais de cansaço. Passamos a ponte e, mais uma vez, o GPS apontava para um ponto bastante distante do nosso destino. Passamos por diversos estaleiros e balsas que transportavam veículos de Iranduba para Manaus e vice-versa, quando, no meio daquele caos, avistei alguns soldados trabalhando na contenção de talude e, logo depois, um toldo com outros militares e repórteres que nos aguardavam.
- Missão cumprida
O Major Maier, Oficial de Relações Públicas do 2º GECnst, havia preparado um aparato formidável para nos receber. Ainda na praia, agradecemos a gentileza da recepção e concedemos algumas entrevistas aos diversos jornalistas que nos aguardavam.
Missão cumprida!